Após três anos, Adélia Prado volta às prateleiras com "Miserere"

Por Caio Cuccino Teixeira
Isadora Faria/Fórum das Letras de Ouro Preto Lançamento do livro de Adélia Prado acontece no Sesc Vila Mariana | Isadora Faria/Fórum das Letras de Ouro Preto

Após três anos de silêncio literário, a mineira Adélia Prado, 78, está de volta às prateleiras com “Miserere”, conjunto de 38 poemas que abordam temas como religiosidade, a efemeridade da vida e a fé na esperança. Adélia lança o livro nesta terça-feira após conversar com o público no programa “Sempre um Papo”, que acontece às 20h no Sesc Vila Mariana (r. Pelotas, 141, tel.: 5080-3000). Os ingressos são gratuitos.

Seus poemas versam sobre a finitude da vida, a transcendência da alma, a busca pelo divino. O que a motivou a escrever esse livro?
A motivação é a mesma desde “Bagagem” (livro de estreia, de 1975): a vida. Cotidiano, rotina, mistério, sofrimento, enfim, esse fenômeno inacreditável que chamamos de vida humana. É isso que me motiva sempre: as nossas vontades, frustrações, o desejo de vida eterna e, ao mesmo tempo, termos que lidar com o fato de sermos mortais, de adoecermos, envelhecermos.

“Miserere” foi título de um dos poemas de “Terra de Santa Cruz” (1981). Agora, batiza uma seleção inteira de textos. É uma súplica?
“Miserere” (da expressão latina “Miserere Nobis”, traduzida “Tende Piedade de Nós”) é quando você se sente agudamente uma criatura sem nenhum poder, falível, mortal, pecadora e sente a profunda necessidade de se dirigir a alguém maior que você, não pecador, infalível, imortal, poderoso, misericordioso. Alguém para quem você pode gritar: “Miserere Nobis”.

Naquela época, a senhora tinha visões e reflexões sobre a vida que, anos mais tarde, foram se cristalizando?
Quando escrevi “Bagagem”, eu tinha só 40 anos. Hoje, tudo aquilo que eu chamava de morte, sofrimento e velhice está mais próximo. O adolescente é imortal, tem a perene juventude, nada vai acontecer com ele. À medida que você vai vivendo, as realidades são diferentes. Não só a velhice e a morte, mas os problemas do país, as dificuldades enfrentadas com sua consciência, intimidade, com aqueles que você ama. Isso tudo tem uma crueza. A vida inteira eu pensei na morte. Mas agora é um pensar diferente. Morrer é de verdade, não só metáfora. Todo mundo está achando que meu livro é mais melancólico e triste. E, de fato, isso é verdade.

Captura de Tela 2014-03-24 às 19.54.35A poesia seria uma forma encontrada pela senhora de se ligar com o divino?
A religiosidade está presente desde meu primeiro livro. O sofrimento e a alegria continuam os mesmos, mas é uma poesia feita de uma experiência mais próxima da realidade. Apesar disso tudo, o livro está cheio de esperança. A poesia é serva da esperança, ela pousa na alegria e na dor, é um fenômeno divino e transcendental.

Alguns autores dizem que poesia não vende, não atrai público. Será que a poesia ainda encontra seu lugar em um mundo tão cibernético, conectado e apressado?
Mesmo que os jovens não estejam atentos, eles estão famintos. O computador que os distrai da vida é sinal de um buraco muito profundo que está sendo preenchido com essas atividades. A poesia é um alimento espiritual que precisa chegar a todos. A primeira responsável é a escola, nossa educação de baixíssima qualidade considera a literatura como matéria de vestibular. No dia que as artes forem consideradas essenciais, estaremos abrindo uma fenda para essa fome, que não é só da juventude, é de todos.

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