Para filósofo Alain de Botton, informação deveria trazer melhorias

Por fabiosaraiva

20140217_SP11_Alain-de-Botton-ilustraAo ajudar a transformar a filosofia em algo popular por meio de milhões de livros vendidos, programas de televisão e eventos com lotação esgotada, Alain de Botton se tornou o que há de mais parecido com um popstar nesse meio. Até Harry Styles, integrante da banda teen One Direction, é fã (e amigo) dele. Após examinar o sexo e a espiritualidade, Botton volta agora seu olhar para o noticiário.

Ele acaba de lançar o “Philosopher’s Mail” (philosophersmail.com), uma versão intelectual do “Daily Mail” que faz graça do site de notícias mais popular do Reino Unido ao adicionar profundidade a suas chamadas. Títulos como “Entrevista com a alma de David Beckham” e “Kiev está em chamas e eu não me importo” desafiam o leitor a repensar sua dieta midiática.

O Metro Jornal falou com Botton em Londres após o lançamento de seu livro mais recente, “The News: A User’s Manual” (a notícia: um manual do usuário, em tradução livre).

 

O que há de preocupante no noticiário e na forma como o consumimos hoje?

A expectativa é que as notícias nos ajudem a viver melhor e ajudem nossos países a serem lugares melhores. Informação deveria trazer melhorias, mas isso não ocorre por uma série de razões.


E que impacto negativo tem o noticiário?

Às vezes ele tem um impacto negativo, às vezes é apenas uma chance perdida. O teste clássico é: você se lembra do que estava no noticiário na semana passada? A maioria não consegue. Nossa memória para informações é muito ruim, e isso é um sinal de que não estamos sendo guiados propriamente. Estamos recebendo uma enxurrada de notícias e esse é o problema. Temos dificuldade em focar no que importa, mas isso não significa que tudo tenha que ser profundamente sério. Acredito muito no material proveniente de noticiários populares, mas não tenho certeza se ele vem sendo manuseado de forma adequada.

 

O “Daily Mail” é caricatura e fenômeno ao mesmo tempo. Por que o site é tão popular e por que a adoração a ele deveria nos incomodar?

Esse site tem um impacto tremendo porque entende bem seu público. Ele sabe que as pessoas têm interesse em sexo e catástrofes, que elas são um pouco racistas e assustadas com certas coisas e que gostam de um toque de glamour. Por isso é tão popular. Em vez de apenas dizermos que ele é terrível, deveríamos nos engajar a ele. Muito do que se vê no “Daily Mail” está nas maiores obras de arte. Clássicos como “Anna Karenina”, “Hamlet” e “Édipo” são repletos de escândalos, assassinatos e suicídios. O material do “Mail” é bom – o problema é o que fazem com ele, apenas jogando o conteúdo no ar sem transformá-lo em algo interessante. Um desastre de médio porte é uma oportunidade maravilhosa para refletirmos sobre como a vida é curta para todos e quão suscetíveis somos a acidentes. Essa não é uma moral que você vai extrair ao ler o “Mail”. Eu o criticaria pela falta de ambição no que tenta dar a seus leitores.


Quão difícil é transformar a filosofia em algo acessível?

Eu me interesso por pequenas doses. Nietzsche e Wittgenstein escreviam aos pedaços. Não há nada de errado em expressar uma ideia em 200 palavras. Com o  nosso “Mail”, tentamos abordar as notícias que você lê no “Daily” apenas como um painel para algo mais profundo.

 

Os leitores estão abertos a essa mistura?

Temos tido grande sucesso. Em cinco dias, conquistamos um grande número de acessos. As pessoas gostam de se divertir como sempre fazem ao ler sobre Miley Cyrus, mas parecem também gostar de obter um pouco de sabedoria.

 

Vocês têm notícias sobre pedófilos, celebridades… O objetivo é ter matérias que rendam muitos cliques?

Sim, estamos realmente muito interessados em sermos populares. Queremos surpreender as pessoas assim que elas clicarem e, logo em seguida, ampliar suas ideias.

 

O “Philosopher’s Mail” é capaz de impactar a mídia?

Ele é uma provocação, uma forma de tentar influenciar o debate. Escrevi um livro sobre o noticiário e a teoria por trás dele, e quando faço isso tenho a chance de lançar um projeto prático para ver como essas ideias viajam.


Como o “Daily Mail” está reagindo ao seu site?

Estamos torcendo para que nos processem porque esta seria uma boa história, mas temos um ex-editor do “Mail” conosco segundo o qual eles não se importam. O livro irritou algumas pessoas – algo que eu não pretendia. Jornais gostam de se apresentar como infalíveis, mas acho que eles deveriam ser mais abertos a críticas externas.

 

Quem é Alain de Botton

Idade. 45 anos

Nacionalidade. Suíça/Britânica

Cidade atual. Londres

Ocupação. Filósofo, autor e professor da School of Life

Temas de interesse. Status social, religião, amor e sexo

Twitter. @alaindebotton

Seguidores. 419 mil (Twitter)
e 217 mil (Facebook)

Patrimônio. Aproximadamente R$ 29 milhões

Livros no Brasil. Pela Intrínseca: “Religião para Ateus”
(R$ 20), “A Arte de Viajar” (R$ 20); pela L&PM: “Desejo de Status” (R$ 22), “As Con-solações da Filosofia (R$ 23), “Ensaios de Amor” (R$ 19)


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