O que as crianças realmente precisam aprender agora?

Dedicar esforços a manter o processo de aprendizagem por meio do ensino remoto é recorrer a um argumento falacioso: as escolas admitem que terão que retomar os conteúdos depois da pandemia

Por Canguru News

Muito se fala que não se deve interromper o processo de aprendizagem e que as aulas online, que exigem horas e horas em frente ao computador, são a única solução viável durante a pandemia do novo coronavírus. Especialistas, porém, têm questionado a eficácia do ensino remoto, principalmente, para as crianças menores, de 2 até os 12 anos.

Para a educadora Luciana E. Correa, especialista em educação tecnológica, manter o processo de aprendizagem escolar é recorrer a um argumento falacioso: as escolas admitem que terão que retomar os conteúdos depois da pandemia, em especial no que concerne ao ensino infantil e os anos iniciais do ensino fundamental. "Encaremos os fatos: para os pequenos, o processo de aprendizagem escolar já foi suspenso em março. As aulas online, os vídeos e as atividades do Moodle (plataforma de ensino) estão, em sua grande maioria, somente cumprindo um calendário escolar para evitar reposição de aulas, férias antecipadas ou uma retomada real (e realista) do ano letivo em 2021", diz ela.

Luciana acredita que ensinar à criança conteúdos escolares sem a mediação presencial de um profissional da educação tende a dar errado. Ela recorda diversos estudos que mostram os riscos para a saúde infantil de uma superexposição à tela de dispositivos digitais. Mais do que investir esforços e energia em conteúdos curriculares, é importante buscar conexões entre os conhecimentos curriculares e outros saberes contextualizados à realidade que estamos vivendo.

É o que propõe Luciana com base nas propostas do filósofo e humanista francês Edgar Morin, relativas à Educação do século XXI, que compõem o livro os “Sete Saberes necessários para a Educação do Futuro”. "Vamos religar conteúdos a saberes, conhecimento técnico a sabedoria de vida, artigos definidos a nomes de pessoas, lugares, sentimentos – que vão além de substantivos e outras classes gramaticais – e poliedros regulares à beleza irregular, imprevisível, e ao mesmo tempo ordenada, do cosmos", afirma a educadora.

Confira abaixo sua proposta do que pais e educadores podem ensinar à criança neste período de quarentena

Leia também: 14 curtas que nos ensinam a falar de valores e sentimentos com as crianças

1. Conviver com as dúvidas

O conhecimento sempre possui um certo grau de erro e inverdade pois está ligado ao sujeito (ou sociedade) que o produziu. A verdade absoluta e objetiva, seria por si só, uma mentira. Que tal, portanto, ajudar as crianças a conviverem mais tempo com dúvidas? Por que não convidá-las a observar o mundo sem a ambição imediata de entendê-lo em sua completude? O conhecimento precisa de paciência e serenidade para criar raízes. Essa postura intelectual e emocional diante da vida pode ser o alicerce que seus filhos e filhas precisam para enfrentar os desafios contemporâneos.  Deixe-os ver as notícias, explique e, sobretudo, ajude-os a duvidar.

2. Conectar com o mundo

O conhecimento tem de estar contextualizado à sociedade, ao indivíduo e ao planeta para que faça sentido. Arrumar os brinquedos pode ser uma maneira das crianças aprenderem a contar. Observar caixas, vasos e poliedros pode ser uma forma de entender os poliedros. E contas de multiplicação podem ser feitas por meio de uma coleção de figurinhas – prática que os pequenos adoram. Ainda, ler poesias, ver um quadro em um museu virtual ou assistir a um filme pode ajudar a melhorar a argumentação. é essencial ensinar à criança que ela pode aprender por meio de conexões com o mundo, com os outros e, principalmente, com eles mesmos.

Leia também: Aulas online: parceria entre escola e família é a palavra-chave

3. Entender o seu lugar no todo

Sujeito, sociedade e natureza se relacionam de modo complexo. Cada pessoa é única e, ao mesmo tempo, guarda em si semelhanças com a comunidade na qual nasceu e com a própria espécie humana, incluindo as adaptações biológicas sofridas para garantir a sobrevivência da humanidade no planeta Terra. Convide seus filhos e filhas a participarem das tarefas da casa como servir a mesa, arrumar o quarto, organizar os brinquedos, secar a louça ou preparar uma salada. Permita que eles aprendam na prática que eles fazem parte de um todo chamado família e essa pertença gera direitos e deveres, momentos de individualidade e coletividade.

4. Expressar os sentimentos

Explique para a criança que agora o mundo inteiro, o planeta ao qual pertencemos, está passando por problemas semelhantes. Sugira que escreva cartas, desenhe, grave vídeos, pinte, crie jogos ou utilize qualquer outra linguagem para expressar o que está sentindo. Fotografe as cartas, desenhos e esculturas para enviar a amigos e avós.  Publique os joguinhos e animações criados por eles. Ajude-os a existir on-line e off-line de forma segura e significativa. Ensine-os a ser, religando-os aos seus mundos interiores (emoções, vontades, sonhos), aos outros e ao planeta. Expressem-se e arrisquem-se juntos! Veja a campanha da UNICEF para inspirar-se: https://www.unicef.org/brazil/sentimentos-no-papel

Veja ainda outras propostas da educadora: como enfrentar as incertezas, como conversar sobre gratidão e compaixão, por que respeitar as escolhas coletivas.

Quer receber mais conteúdos como esse? Clique aqui para assinar a newsletter da Canguru News. É grátis!

Conteúdo Patrocinado
Loading...
Revisa el siguiente artículo