Alfabetização na quarentena: crianças podem sair prejudicadas?

Especialistas comentam impacto do isolamento nas crianças em fase de alfabetização e dão dicas de atividades de leitura e escrita que os pais podem fazer em casa com as crianças

Por Verônica Fraidenraich – Canguru News

Por maior que seja o esforço das escolas e das famílias para manter o ensino remoto durante o isolamento social, muitos pais estão angustiados com a sensação de não conseguir oferecer ao filho o mesmo estímulo pedagógico que ele estaria tendo em sala de aula. Para quem tem criança no 1º ano do ensino fundamental, ou seja, em fase de alfabetização, o aperto no peito é ainda é maior. Será que o aprendizado da leitura e escrita ficará comprometido?

Luciana Crincoli, advogada e mãe de João, 6 anos, e Lucas, 4 anos, diz que no início da quarentena ficou preocupada ao pensar que o filho mais velho poderia não ser alfabetizado este ano. “Ele gosta de copiar as histórias que lê nos gibis. Está numa fase em que tem muita curiosidade sobre o processo de escrita, mas é difícil para nós, como pais, suprir essa demanda em casa”, diz Luciana.

A coordenadora pedagógica Liliane Gomes, da escola bilíngue Stance Dual, na zona central de São Paulo, relata que de fato alguns pais a procuraram perguntando se os filhos poderiam “desaprander” o que já haviam visto ou não avançar na leitura e escrita tanto quanto deveriam este ano. Mas ela explica que é comum nesta fase as crianças estarem em diferentes níveis – enquanto uns já sabem ler, outros, ainda não compreendem o sistema de leitura e escrita. "Isso vai depender das experiências, vivências e habilidades de cada um, por isso o 1º e 2º anos são fases importantes que a gente considera que é o período de alfabetização”, relata a coordenadora da escola que alfabetiza as crianças primeiro na língua materna e depois introduz um segundo idioma.

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Lei determina que o processo de alfabetização ocorra em até dois anos

De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), os dois primeiros anos do ensino fundamental devem focar no processo de alfabetização. Nesse período, portanto, a criança deve ser capaz de dominar o sistema de escrita e de de ler e escrever textos de diferentes gêneros – o que pode incluir contos, fábulas e romances, mas também regras de jogos, bulas de remédios e listas de supermercado, por exemplo.

A pedagoga Patrícia Diaz, diretora de desenvolvimento educacional na Comunidade Educativa Cedac, recorda que o ano letivo é uma organização artificial para o desenvolvimento da criança. “Se ela não aprende agora, não é um prejuízo irrecuperável, ela pode aprender depois”, diz. Fora isso há outros conhecimentos que as crianças adquirem em casa, neste período de quarentena, que também são importantes. “Não é só na escola que a criança aprende, ela está imersa em situações de leitura e escrita no seu cotidiano”, relata Renata Frauendorf, coordenadora dos programas de alfabetização do Instituto Avisa Lá.

Foi justamente pensando nisso que Luciana, a mãe de João, passou a ler contos com ele todos os dias, além de incentivá-lo a escrever, do seu jeito, as receitas de bolo da avó e mesmo os nomes dos molhos e comidas nas etiquetas dos preparos congelados da casa. Jogos que que exigem leitura de textos como banco imobiliário também passaram a fazer parte das atividades de rotina. “Em vez de me preocupar, comecei a pensar no que eu podia fazer para minimizar o prejuízo que, ao meu ver, é inevitável, todos terão, uns mais, outros menos, e percebo que ele tem progredido no reconhecimento das letras”, relata a mãe.

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Especialistas ressaltam que os pais não devem de forma alguma assumir o papel do professor, mas, ao promover brincadeiras e atividades variadas em casa, eles ajudam muito os filhos no processo de alfabetização. “Ao vivenciar situações de leitura, pensar sobre o texto escrito e conversar a respeito disso com adultos, as crianças vão ampliando o seu repertório, observando como a escrita se apresenta na nossa sociedade”, explica Patrícia. Com a ajuda das educadoras, elaboramos uma lista de sugestões que os pais podem fazer em casa com os filhos. Confira.

Brincadeiras e atividades que ajudam as crianças no aprendizado da leitura e escrita:

PRÁTICAS DE LEITURA

  • Ler livros infantis com as crianças.
  • Ler receitas de bolo (ou outros preparos) junto com os filhos, para que eles separem os ingredientes, observem as medidas e participem da produção do prato.
  • Ler trechos de notícia de jornal e comentar sobre o assunto lido.
  • Abrir sites voltados a crianças e ler as informações ali presentes.
  • Ler a biografia de um cantor que a criança gosta muito.
  • Ler junto com a criança as instruções de um jogo para depois jogarem juntos.
  • Ler para si mesmos (os adultos) e compartilhar esse comportamento com os filhos, comentando sobre o que estão lendo ou o que diz o livro, por exemplo.
  • Observar junto com as crianças as embalagens de produtos e o que está escrito ali.

PRÁTICAS DE ESCRITA

  • Se fazer de escriba para a criança: ela dita e a mãe escreve. Pode ser as regras do jogo, uma receita ou um trecho de história que leram juntos. “Essa é considerada uma linguagem escrita da criança em que ela só não está grafando do próprio punho porque não sabe escrever mas vai ditar pensando como se escrevesse”, diz Patrícia Diaz.
  • Sugerir que a criança recorte letras de revistas antigas e com elas arme palavras que conhece – seu nome, dos amigos e familiares, por exemplo
  • Sugerir que a criança escreva, da forma que ela conseguir, a lista de compras do supermercado, a lista dos amigos que mais sente saudade, o recado para os avós ou os aniversariantes do mês.
  • Criar calendários e sugerir às crianças que preencham com os dias da semana e façam anotações de como estava o tempo, por exemplo.
  • Aproveitar o momento de home office e trabalho no computador para sugerir que a criança brinque ao lado, digitando também em um teclado velho ou de papelão.

PRÁTICAS ORAIS

  • Pedir que a criança reconte histórias lidas (ou ouvidas), podendo criar uma nova versão para o final da história.
  • Usar trechos de histórias lidas para brincar de teatro, sugerindo que a criança mude o tom de voz de acordo com o personagem representado.

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