Como o sistema italiano pode ajudar o SUS a combater o coronavírus?

Especialista aponta semelhanças e diferenças entre os sistemas

Por Luccas Balacci

Considerado um dos melhores sistemas de saúde pública da Europa, o Serviço Sanitário Nacional (SSN) da Itália está à beira de um colapso por conta da pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2), mas pode servir para que o Brasil tome as medidas necessárias para frear os contágios.

Assim como o Sistema Único de Saúde (SUS), o SSN visa a oferecer serviços gratuitos para todos os cidadãos do país, garantindo atendimento amplo e universal – desde consultas até cirurgias de alta complexidade – de maneira descentralizada. De acordo com o ex-membro do Conselho Estadual de Saúde de São Paulo e um dos coordenadores do Fórum de Portadores de Patologistas do Estado de São Paulo (Foppesp), Jair Leme Jr., os dois sistemas "são muito próximos" e têm a mesma ideia de divisão em níveis – no caso do Brasil, tripartite (federal, estadual e municipal).

"O sistema é muito parecido com o nosso, mas o deles é melhor financiado e está à frente na questão da infraestrutura", destaca Leme em entrevista à ANSA, ressaltando que a grande diferença entre os dois é que no Brasil há a saúde suplementar, ou seja, o sistema privado, que acaba dividindo os recursos no país.

Isso porque o dinheiro para a saúde acaba sendo repartido em 50% para cada um dos dois sistemas, mas 75% da população usa o SUS, o que causa maiores problemas de financiamento do serviço público. Para o consultor, isso deixa a "questão mais complexa" no Brasil.

Outro ponto é a descentralização, que funciona melhor na Itália, mesmo que seja um dos pilares do SUS desde a sua origem. "O SUS tem na sua essência ser descentralizado, mas não chegamos ainda nesse estágio. É importante ter autonomia porque dá mais manejo. Por exemplo, o secretário de uma cidade pode ter mais dificuldade que outro da cidade vizinha. Essa descentralização é positiva, mas o sistema ainda é engessado", ressalta.

Na Itália, por exemplo, a descentralização faz com que cada região atue de maneira diferente no combate à pandemia, e isso tem um lado positivo – respostas mais rápidas na gestão dos recursos financeiros e de pessoal – e um negativo, que impacta diretamente nas estatísticas. A Lombardia, região mais afetada, realiza testes apenas em casos que vão para o hospital, seguindo uma diretriz do Ministério da Saúde, mas outras, como o Vêneto, defendem o modelo sul-coreano de exames em massa, incluindo em assintomáticos.

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Para Leme, também doutorando em saúde pública da Universidade de São Paulo (USP), o fato de o sistema italiano enfrentar tantas dificuldades durante a pandemia é um sinal de alerta para o Brasil.

"Eles têm um sistema com mais leitos de UTI [unidade de terapia intensiva] por pessoa do que o nosso e, mesmo assim, o sistema está colapsado. Ou seja, a nossa situação é muito preocupante. Temos a vantagem de estar um passo atrás na questão do tempo e conseguirmos prever melhor as ações, detectando quais são os gargalos", pontua.

Por isso, para Leme, é preciso olhar para as ações tomadas fora do país para saber como se preparar melhor para quando os casos no Brasil começarem a se acumular. O especialista cita alguns "cases de sucesso", como os da China, que optou pela supressão total – obrigando os cidadãos a ficarem em casa e só saírem de máscara -, e da Coreia do Sul, que fez testes massivos na população.

"Precisamos olhar para os dois, ver o que fizeram certo e copiar. E também olhar o que a Itália fez de errado para aprendermos e não repetirmos", destaca o especialista à ANSA.

Segundo Leme, o estado mais afetado até o momento pelo coronavírus no Brasil, São Paulo "já tem mais de 80% dos leitos de UTI ocupados, sem contar a Covid-19". E a situação é ainda pior nas cidades menores, já que muitas sequer têm hospitais com ventiladores mecânicos, fundamentais na recuperação daqueles internados por conta da nova doença.

"Como o vírus tende a circular por todo o território, é bastante preocupante o que acontecerá", diz.

De acordo com um documento enviado pelo Centro de Operações de Emergências do SUS para profissionais da área em todo o país, caso uma região atinja 80% dos leitos de UTI ocupados, será preciso decretar uma quarentena.

Para Leme, os governos de São Paulo e Rio de Janeiro têm tomado condutas que "são muito importantes nesse contexto", como a questão do isolamento social, o fechamento do comércio não essencial e o aumento no número de leitos de UTI. Já sobre o governo federal, o especialista aponta que ele está "muito inerte" na prevenção à pandemia.

De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde neste domingo (22), são 1.546 casos do novo coronavírus no Brasil, em todos os estados brasileiros, e 25 mortes confirmadas – das quais 22 em São Paulo. O estado paulista também é o que registra mais casos da nova doença, com 631 contaminações. Até o momento, a taxa de letalidade é de 1,26% de acordo com o governo federal.

Já a Itália tem cerca de 60 mil casos e 5,5 mil mortes.

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