Pacificação não resiste à PM que o Rio tem

Por fabiosaraiva

xico-vargas colunistaHá exatos três anos, a cidade amanheceu com a promessa de ser libertada de quatro décadas de dominação do crime sobre sua favela mais famosa, a Rocinha. O governador disse que aquilo era fruto de longo planejamento e o secretário de Segurança festejou o resultado alcançado “sem derramar uma gota de sangue de seja lá quem for”. Ali estava a carta de alforria para 70 mil pessoas subjugadas por facções criminosas entranhadas num bairro de mais de 800 mil metros quadrados e mais de 25 mil moradias.

Desde então, o que parecia ser o desmonte do maior entreposto de drogas do Rio transformou-se para a população num tormento que evidencia falhas crescentes na política de segurança. Até a instalação da UPP, quase um ano depois, houve 13 assassinatos na favela, todos rapidamente desvendados com a ajuda da população. Havia uma guerra residual entre quadrilhas de traficantes para expandir territórios e viabilizar o varejo de drogas, mas nada que ameaçasse as relações da polícia com os moradores.

A partir da tortura e morte do pedreiro Amarildo de Souza, por 10 policiais da UPP, essa espécie de pacto entre a população e a PM ruiu. Se ainda não havia aceitação plena, instalou-se a intolerância e, no meio disso, cresceram a influência e a desenvoltura da bandidagem. Armas e munições já não faltam para enfrentar a polícia em combates praticamente diários. Drogas chegam e saem com a facilidade dos velhos tempos, o que é sinal seguro de que o dinheiro para garantir a vista grossa voltou a correr solto.

Esses sinais de fraqueza – que se reproduzem em outras grandes favelas da cidade, como o conjunto do Alemão – ajudaram a sepultar outros projetos de segurança. Para piorar, ocorrem num momento de extrema fragilidade da Polícia Militar, sacudida por denúncias de corrupção em variados degraus do comando. Nunca, como agora, tornaram-se tão evidentes as falhas e a fragilidade na preparação da PM, e a sua incapacidade de corrigir o rumo para fora de um tipo de ação que só conduz a confrontos com bandidos nas áreas de baixa renda.

Como outras favelas, a Rocinha acaba de completar mais uma semana sem aulas. Imagine-se o que significa isso na favela em que a Fundação Getúlio Vargas encontrou o mais baixo índice de escolaridade da cidade, fenômeno ao qual se pode acrescentar um semestre inteiro sem aulas por causa da greve dos professores do município. Se em três anos e confrontos quase diários não se conseguiu garantir nem o funcionamento regular das escolas, talvez se deva concluir que é hora de buscar outro caminho ou, pelo menos, outra formação para a polícia. Essa, como é, já se mostrou incapaz de executar o projeto de pacificação.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

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