Nada além dos velhos interesses pessoais

Por fabiosaraiva

xico-vargas colunistaForam três longos meses de campanha para chegarmos exatamente ao que tínhamos antes: um conjunto de ideias de longo prazo que promete nos trazer à porta saúde, educação, água, esgoto, transporte e segurança. Por onde quer que se olhe, trata-se de um pacote de mistificações, com décadas de idade, usado como os malabares dos garotos de sinal de trânsito. Numa boa, premia-se a agilidade do malabarista com o voto.

Por mais saudável que tenha sido escoimar do futuro de cariocas e fluminenses a visão única da vida sem pecado, oferecida pela Igreja Universal, e a mistura de fralda com salmo e remédio a um real, 15 milhões de pessoas formam um contingente importante demais para ter uma vida política que se move em círculos. Mas, mais uma vez, não é nada muito diferente disso o que podemos esperar para os próximos quatro anos.

Começa que, nem 24 horas depois de anunciados os resultados, o cenário já voltou ao que sempre foi. As velhas ratazanas retomam a administração do butim. Encabeça uma trupe o deputado Paulo Melo, dono de meia Região dos Lagos, que fincou raízes na presidência da Assembleia e precisa do poder e do dinheiro que desse latifúndio derivam.

Na outra ponta o velho cacique Jorge Picciani, presidente do PMDB, que tanto quanto Melo reúne em torno de si a materialização do ranço na política, quer também o lugar. A nenhum dos dois, no entanto, motiva qualquer projeto voltado para fora de seus próprios interesses. A rigor, não existem no Legislativo fluminense projetos políticos. O que há são projetos pessoais que, por acaso, transitam no terreno da política.

Melo encastelou-se no controle do que passa por cima e por baixo da mesa em benefício de seu grupo. Picciani, que já domina as galés, quer estar acima do convés na sucessão de Eduardo Paes, daqui dois anos. Poderá, então, cortar o baralho a favor do filho, Leonardo. Nada, portanto, que não seja pessoal, num Legislativo que nem a renovação de 30% dos nomes foi capaz de oxigenar.

Tampouco o crescimento do que poderia ser chamado de grupo mais à esquerda, representado pela participação do PSOL no quinhão de votos, nos trará coisa boa. Ao contrário, poderemos ter novas dissidências nos sindicatos e multiplicação das greves no ensino público. Felizmente o eleitor deixou na estrada subprefeitos que, enquanto esquentavam a cadeira no Executivo, trocaram a ordem pública pelo bolsão de votos da favela.

Lamentável, portanto, que nada do que nos reserva o futuro seja fruto de um projeto político ou represente conquista da sociedade. O que vier chegará sempre como efeito da lei da gravidade, motivo por que continuará aquém das nossas necessidades.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

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