Política do pecado transforma a fé em voto

Por fabiosaraiva

xico-vargas colunistaNunca o pecado esteve em tantas bocas quanto nesta campanha eleitoral. Nunca tão carregado de ódio e de sentenças irrecorríveis. Conseguimos enxovalhar a liberdade individual, esgarçá-la, até fazê-la caber nos limites de um julgamento que transforma nosso semelhante em refém da própria maneira como vê o mundo – ou o enxerga como nós, ou o apontamos ao clamor público.

O que se colhe hoje dos discursos nas ruas resulta de bem planejada artimanha que invadiu o território sagrado da liberdade há quase uma década, quando ganhou lugar nas escolas públicas o ensino da religião. Pareceu-nos, então inocente, que o credo deixasse de ser uma escolha das famílias ou dos indivíduos para ser transformado em currículo escolar. Não foram os textos bíblicos que permearam os cadernos, como cultura, mas os mistérios da fé, como dogma.

O Rio, com seus bolsões de informação e renda rarefeitos e desprezados pelo poder público em períodos normais, entre eleições, ofereceu ambiente favorável à noção da fé que salva e purifica. Desde então, deita raízes na sociedade a ideia segundo a qual o comportamento individual ou coletivo só não carrega o pecado se estiver atrelado à crença. Por esse caminho chegou-se a negar a ciência, introduzindo na cadeira de religião das escolas a visão criacionista do mundo.

Não seria exagero, portanto, esperar que, dia mais, dia menos, chegasse à política e, claro, às campanhas. Chegar, porém, não dói. O perigo mora no discurso que soletra a noção do pecado. Não prega a liberdade como bem inalienável à vida em sociedade, mas como concessão da divindade, uma oportunidade para que o indivíduo faça a única escolha possível pelo lado certo do caminho.

Tem sido assim ao longo do tempo. As certezas da fé já não mandam inocentes às fogueiras, mas, séculos depois, ainda não se pode dizer que ficam longe disso. Os acenos do papa em direção à liberdade de escolha dos indivíduos sequer sensibilizaram o seu círculo mais próximo. Como se a governança máxima de uma crença nada tivesse a ver com o juízo que ela já enraizou no mundo.

Da mesma forma, tenta-se fazer crer que a estreita noção de pecado de um candidato pode conviver com a necessária tolerância de um governante em relação às escolhas dos governados a respeito da própria vida.

Até agora, embora cada vez mais tênue, sobrevive a fronteira entre a política e a religião. No Planalto, talvez por bom senso. No Parlamento, já desapareceu, com efeitos cada vez mais danosos. Mas, nos executivos estaduais, talvez pela proximidade com um eleitorado cativo da fé, o perigo ronda a cada eleição. Nunca tão de perto quanto agora.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

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