É só questão de paciência e estômago

Por fabiosaraiva

xico-vargas colunistaÉ de supor que candidatos de uma coligação ou, pelo menos, de uma mesma chapa, consigam guardar coerência no que dizem dos adversários. Começam por aí as divergências e identidades que afastam e aproximam uns dos outros. No Brasil, no entanto, a lama que compõe o campo onde se joga a política estabelece que não há diferença, distância ou divergência que não possa ser transposta por interesses, tenham eles a cor que tiverem.

Essa é a cara, por exemplo, da aliança que atraiu Romário, eleito senador com quase cinco milhões de votos, para a campanha de Pezão. Pouco importa o que tenha sido dito nas entranhas desse encontro ou antes de ele ter acontecido. A campanha do ex-jogador já havia rondado o PMDB no primeiro turno, mas não houve acerto. Como o processo estava no início, o conjunto de exigências foi considerado caro. Cesar Maia, com 9% das intenções de voto, estava à mão e de graça.

À falta de vaga para ser aliado, Romário alinhou então entre os adversários. Na campanha de Lindbergh Farias, o agora senador eleito não poupou o candidato de Sérgio Cabral. A rigor, Pezão talvez tenha sido o candidato que mais apanhou nessa caminhada. Bateram-lhe pelos erros próprios e pelos alheios. Sobreviveu.

O conjunto de itens – que pode ser traduzido por meia dúzia de linhas – do que seriam as exigências de Romário para apoiar a candidatura Pezão, é apenas o cumprimento da praxe nesses encontros. Não seria razoável esperar, por exemplo, que se tornassem prioridades. É da solenidade dessas cerimônias que se prolonguem um pouco as análises e observações antes de fechar a gaveta completamente.

A cena perfeita para retratar as alianças vimos nos jornais que se seguiram à contagem dos votos. Os casais Crivella e Garotinho sentadinhos no sofá da sala dos Garotinho, em Campos, encarnaram a união do bem contra as hordas bárbaras. Depois se fala de Cheque Cidadão, restaurante popular e cabeleireiro por um real. Mais tarde veremos com calma por que o município que mais recebe dinheiro do petróleo tem os piores números na educação.

Afinal, o bom nas alianças de segundo turno é que, além de sempre caber mais um, o eleitor já sabe que não precisa buscar coerência. Isso é coisa de gente puritana. Política não é como nuvem, que cada vez que se olha está de um jeito? Pois tem uma hora que fica como a gente queria no início. É só ter paciência para esperar e estômago para não vomitar.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

Conteúdo Patrocinado
Loading...
Revisa el siguiente artículo