Nos preparamos para mais do mesmo

Por Tercio Braga

Desde que conseguimos enxotar a treva da ditadura – já lá se vão três décadas – acreditamos cumprir a cada eleição o ritual de construir uma sociedade que se pareça com o ideal de democracia em que a média da população acredita. Mas será que temos conseguido? O que se oferece hoje ao nosso voto não reflete isso.

Para não buscar lá atrás exemplos que embrulham o estômago, como o dono do Maranhão ou o cavaleiro das Alagoas, será que o conjunto que tivemos ao alcance do olhos nos anos recentes é o que de fato espelhou o que queríamos para nos representar? Quem, afinal, representa os fundamentos da sociedade em que desejamos viver e criar os filhos?

São os que estão nas grades, na Papuda, ou os que seguem livres, em Minas e São Paulo, por falta de julgamento? São os amigos da ex-sub-primeira-dama, que mandava na sede da Presidência da República, em São Paulo, ou os amigos do petroladrão preso, que agora troca até a mãe pela promessa de passar o aniversário da filha em casa?

Qual é o nosso exemplo de homem público? O que avaliza negócios patrocinados por doleiros no Ministério da Saúde, pendura doentes nas filas dos hospitais, mas quer mesmo é ser governador? É o que se rasga para abocanhar o Ministério dos Transportes e sua cornucópia de licitações ou o ex-presidente que se nega a depor na Polícia Federal antes da eleição?

Tivemos nessas três décadas que se seguiram ao sepultamento da ditadura basicamente duas conquistas fundamentais: a estabilização da moeda, sem a qual seríamos hoje apenas mais uma nação miserável, e, muito com base nisso, extraordinário movimento de ganho de renda e inclusão social. A partir daí, fumaça, só fumaça.

Quanto mais para baixo, no poleiro em que se transformou a política, mais sujeira, como em qualquer galinheiro. Nas casas legislativas do país – federais ou estaduais – são escassos os nomes que não emporcalham o mandato que lhes deu o eleitor. Para ficar só no publicável – ou, para dizer o mínimo, no que não envolve a cama de ninguém – preside o Senado personagem capaz de requisitar jato da Força Aérea para levá-lo a tratar dos cabelos.

Seu igual na Câmara fez o mesmo para levar família e amigos ao futebol. De resto, nas Casas que ambos presidem poucos honram o trabalho pela população. No geral, agrupam-se para representar os interesses que os financiam, como as bancadas da bala, da bola, do agronegócio, do cimento e por aí vai. Com pequenas variações, nos Estados o cenário é o mesmo. Mudam apenas as moscas e o tamanho da gorjeta. E como o rugido das ruas ano passado foi engolido pelo oportunismo de vândalos e partidos, o que deveremos ter no próximo domingo é só mais do mesmo.

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