Jandira é resultado do que decidimos ignorar

Por fabiosaraiva

xico-vargas colunistaA esta altura, já não há dúvida sobre o fim de Jandira Magdalena Cruz, a moça que saiu de casa para livrar-se de uma gravidez indesejada. O inquérito, a prisão dos bandidos que lhe deram sumiço no corpo, a passividade do Cremerj que só agora investiga um médico reincidente no crime há quatro anos ou a leniência da Justiça que o deixou solto são as cores mais suaves desse cenário. As mais fortes mostram que essa tragédia vai continuar em todas as esquinas de todas as cidades brasileiras até que o nosso cinismo nos permita tirar os olhos dos próprios umbigos.

Quase uma década nos separam da manhã daquela primeira quarta-feira de setembro, de 2005, quando a ministra Nilcéia Freire ligou para a deputada Jandira Feghali e desmarcou o almoço combinado. Nele entregaria o resultado de longa discussão a respeito da Revisão da Legislação sobre Interrupção Voluntária da Gravidez. O documento reforçaria o projeto da deputada sobre descriminalização do aborto, que ainda tramita na Câmara.

O trabalho de Nilcéia havia sido abatido por dois importantes textos saídos da reunião da CNBB, em Itaici, dias antes. Ambos produzidos sob o eco da explosão do mensalão, com toda a sujeira que daí respingava no governo. O estudo do ministério de Nilcéia, o primeiro nascido no Executivo, era o preço pelos 19 brandos parágrafos da análise da Igreja sobre a necessidade de “Resgatar a Dignidade Política”. Não se leu ali a menor censura ao governo, então acossado por um mar de denúncias.

Quatro dias depois, no que foi possivelmente a mais vigorosa intervenção da Igreja no Brasil – um estado laico – sobre os poderes da República, a CNBB despejou a fúria católica contra “uma série de iniciativas” do Executivo, do Judiciário e do Legislativo em relação a aborto, contracepção e lei de Biossegurança. Não deixou, no tema, pedra sobre pedra. Distribuição de preservativos, DIU, pílulas do dia seguinte, aborto de anencéfalos, pesquisas com células-tronco e por aí foi.

Continuamos então a curar tragédias como a de Jandira Magdalena com a providência tópica do inquérito policial. Resultado de discreta pressão da Arquidiocese, no início dos anos 2000 a prefeitura chegou a suspender a distribuição de anticoncepcionais nas favelas cariocas, porque as casas não teriam número, o que prejudicaria a entrega. Como se morador de favela, com ou sem número na porta, deixasse de receber cartas. Voltou a distribuir em 2003, em resposta a um surto de gravidez adolescente. Somos assim, convivemos com um grave drama de saúde pública que arrasta perto de 200 mil mulheres aos hospitais todos os anos. Centenas morrem. Muitas, como Jandira Magdalena. Mas achamos que criminosos são só os outros.

 

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

 

 

 

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