Melhor tirar o título de eleitor da chuva

Por fabiosaraiva

xico-vargas colunistaNada é tão anacrônico quanto o realejo da Justiça Eleitoral quando anuncia, toda campanha, que a compra de votos será rigorosamente investigada e punida. Será nada. Nem uma coisa, nem a outra. E se houver a primeira, que nunca será tão rigorosa quanto se anuncia, da segunda ouviremos falar – apenas falar – ao longo das décadas seguintes. Menos por culpa da Justiça do que da bandalheira que tomou os costumes e transformou a relação entre candidatos e eleitores em deslavada troca de concessões impronunciáveis por votos.

Quando mira no cadastramento de títulos eleitorais por associações de moradores em favelas controladas por traficantes ou milicianos, a fiscalização se contenta com o trivial. Enquadra só a versão compulsória do assistencialismo semeado através dos centros sociais e culturais que a baixa política planta nas áreas mais pobres. Ao apontar apenas para essas duas vertentes do varejão da política no mercado paralelo do voto, a Justiça Eleitoral despreza a origem do mal.

O crime tem variadas caras e começa bem antes. Geralmente quando o candidato ocupava cargo no Executivo. Levava para casa salário pago por todos os contribuintes, mas dedicava-se a facilitar a vida dos que agora lhe entregam o voto. A quem a constatação interessar é só dar uma passadinha pelas favelas que mais cresceram – e as que surgiram – nos anos recentes e anotar os nomes dos candidatos ao primeiro mandato de deputado que têm as fotos estampadas pelas paredes.

Bom número deles estava no Executivo e, não raro, em subprefeituras, repartições responsáveis por fiscalizar as posturas municipais em cada região da cidade. Em lugar disso, os bonitões deram as costas à ordem urbana e se apresentam agora para colher os votos trocados pela vista grossa. São quase todos jovens, mas carregam o conhecido ranço da velha política. Como Cristiane Brasil – até outro dia secretária de Envelhecimento Saudável e Qualidade de Vida do município –, flagrada, diz a Justiça, tentando tirar uma casquinha nos votos da Terceira Idade.

Em que difere isso do controle de milicianos e traficantes sobre os votos das favelas que dominam? Em campanhas passadas eram comuns as faixas de Cesar e Rodrigo Maia, pai e filho, nas favelas dominadas por milícias zona oeste afora. Cesar, prefeito, apoiava milícias e seu partido ofereceu legenda a Nadinho, miliciano que dominava Rio das Pedras e virou vereador.

O que mostra o movimento dessa gente toda senão a mais reles compra de votos? E serão legisladores dessa extração que oferecerão ao país uma reforma política capaz de construir um cenário decente? Se alguém espera isso é melhor tirar o título de eleitor da chuva.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

 

 

 

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