Para entregar o Rio às bikes é só querer

Por fabiosaraiva

xico-vargas colunistaEm Berlim, uma vez por ano, nesta época, milhares de casais, muitos com crianças, velhos, jovens, executivos, estudantes, pessoas comuns que cumprem o conhecido ritual diário entre a casa e o trabalho, pegam suas bicicletas, cedo num domingo, e pedalam para um gigantesco encontro num dos parques da cidade.

Parece uma feira coalhada de barracas coloridas o lugar onde passam o dia entre diversão, passeios e dezenas de palestras sobre maneiras de tornar melhor, mais confortável, a vida dos berlinenses. Ali trocam opiniões, ouvem palestras, conversam com autoridades municipais e sugerem soluções e mudanças que vão produzir reflexos no cotidiano de mais de 3,5 milhões de pessoas. É como se cariocas de todos os cantos da cidade pedalassem para o parque do Flamengo e lá, acampados na grama, debaixo do sol que tem feito esses dias, chamassem o secretário de Conservação para dois dedos de conversa. Poderiam descobrir, por exemplo, por que na cidade que pretende ser “das bicicletas”, à exceção das ciclovias que correm junto à orla, todas as demais estão cobertas de buracos?

Talvez tivessem a chance de sugerir que, antes de abrir novos caminhos com apenas tinta demarcando o trajeto no asfalto, a prefeitura se preocupasse em estender as ciclovias ou ciclofaixas  até as franjas das favelas. Afinal, com bicicletas de boa qualidade  vendidas a R$ 340,00 em 10 pagamentos de R$ 34,00, como se encontra hoje em dezenas de lojas, um pequeno gesto do poder público poderia produzir grande mudança na mobilidade do Rio.

Sem contar que, se o morador de favela trocar o quentão pelo pedal, não será difícil calcular o ganho em saúde e o acréscimo ao almoço de domingo da família. Basta receber a graça de um caminho seguro para pedalar. Se do jeito que está, só na orla passam quatro mil bikes por dia, de segunda a sexta, imagine-se quando essa malha alcançar a casa da baixa renda.

Para completar, bicicletários de verdade nos acessos às favelas, mais espaço para bikes nas estações de metrô e vagão para levá-las não só nos fins de semana. De quebra, cicle dos principais fabricantes para fazer a manutenção da frota e gerar emprego para a mão de obra local arremata a revolução.

Bicicletários e cicles estão na medida para a entrada dos fabricantes na mudança. São eles que faturam rios de dinheiro nesse mercado. Do jeito como estão as cidades, os brasileiros já compram cinco milhões de bikes por ano, o que torna essa indústria a terceira do mundo.

Dezenas de cidades mundo afora abrem espaço às bicicletas sem muito barulho, como caminho normal da urbanização. Aqui se bate o bumbo a cada quilômetro de ciclovia, mas as grandes obras viárias homenageiam o automóvel.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

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