A polícia resolveu provar que está viva

Por fabiosaraiva

xico-vargasDepois da desastrosa passagem da Core pela favela do Morro do Banco, no Itanhangá, que resultou na morte de um rapaz ajoelhado e de mãos para o alto, a Polícia Civil precisava dos resultados com que fechou a semana. As prisões da quadrilha que matou Tintim Mascarenhas, na Gávea, e do balaio de milicianos que escravizava cinco mil cariocas na zona oeste, se não resgatam a sensação de segurança de que a população precisa, permitem perceber que a cidade não está irremediavelmente submetida ao banditismo. A polícia ofereceu prova de vida ao carioca.

Poucas vezes em escassos 22 dias a polícia conseguiu reproduzir o passo-a-passo de um crime ocorrido na rua e botar as mãos em três dos cinco que o cometeram. Há detalhes preciosos, como o garimpo que rastreou o sinal do celular de Tintim até o camelódromo da Uruguaiana, onde estava à venda – o que mostra que se construiu ali um ninho de receptação –, e a análise, quadro a quadro, dos vídeos que registraram os movimentos do olheiro observando a passagem da sócia do restaurante Guimas pela agência do banco.

Do relato da repórter Ana Claudia Costa emerge uma polícia inteligente, capaz de colecionar imagens de câmeras de rua – distantes quilômetros uma da outra – até definir a área da cidade onde os criminosos moram. Ourivesaria pura associada ao trabalho do Disque-Denúncia, a ONG que há mais de uma década se tornou sócia da polícia na identificação de criminosos. O desfecho da investigação, no entanto, não redime a polícia do longo roteiro de saidinhas de banco bem sucedido para os bandidos. Apenas estimula a avaliação sobre quanto o carioca poderia ter sido poupado se toda essa inteligência tivesse saído à rua mais cedo.

Não é outra a sensação que resulta da prisão dos mais de vinte milicianos que semeavam terror em conjuntos do Minha Casa, Minha Vida. Ainda que prender quadrilhas entremeadas de policiais seja tarefa espinhosa, uma investigação de sete anos para enfiá-los nas grades só revela a fragilidade da população diante de criminosos que ela imagina pagos para protegê-la.

A tão frouxos prazos certamente deve-se a largueza de gestos das milícias. Hoje não só dominam núcleos habitacionais com população igual à de pequenas cidades brasileiras, como crescem em representação social e política. No Rio, mora na zona oeste a evidência sobre quem são os políticos que oferecem aos grupos milicianos a possibilidade de conquistar mandato parlamentar ou galgar cargo político. Quem quiser conhecer a identidade dos cavalheiros é só percorrer favelas dominadas por essa gente e olhar com atenção a quem estão associados em faixas e cartazes. É a melhor época para descobrir isso.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

Conteúdo Patrocinado
Loading...
Revisa el siguiente artículo