Morro do Banco não é só crime policial

Por fabiosaraiva

xico-vargasPor tantos e tão repetidos, os crimes da polícia disseminaram entre os que a comandam um tipo de mantra, cuja gradação  máxima tem sido traduzida pela expressão “cortar na carne”. Depois do secretário de Segurança, há duas semanas, repetiu-o o governador, agora a propósito do jovem do morro do Banco, morto de joelhos e com as mãos para o alto – ao que tudo indica passado nas armas por dois policiais da Core.

“Cortar na carne” é o que mais fez a polícia nos anos recentes; 1.640 vezes, revelou Pezão. Nem se poderia esperar punição mais leve, pois o salto de 140% nas expulsões (de 143 para 317) de 2011 para 2013 revela que o crescimento da criminalidade é maior na polícia do que na população em geral. E entre todos os segmentos da polícia, a Militar – talvez pelo contingente – é mais frequentemente flagrada em delinquência. Haja lâmina, então.

São recorrentes na população as histórias de achaque e abuso de autoridade que têm PMs como protagonistas. Da mesma forma, crimes mais ofensivos que, até há pouco tinham como vítimas preferenciais moradores de favelas, já acontecem por toda a cidade. O episódio do morro do Banco, no entanto, revela a entrada de novos personagens nessa vala comum da violência a varejo.

A Core foi criada na ditadura como grupo escolhido na ponta dos dedos na Polícia Civil para encarar terroristas. No início, eram 12 sujeitos mais preparados que qualquer pelotão das Forças Armadas. Desfeita fantasia do perigo vermelho que tanto assustava os generais, passou a guarnecer operações da polícia em áreas de risco infestadas pelo tráfico.

Nada disso, porém, guarda semelhança com um jovem ajoelhado numa calçada de favela, com as duas mãos para o alto. E, no vídeo exibido pelo jornal Extra, desde que os dois agentes entram em quadro, o comportamento criminoso fica evidente. A começar pelos disparos de advertência não para cima, mas na direção do rapaz, que morreria com mais dois em seguida.

Na PM sequências muito próximas disso têm tanta intimidade com a rotina quanto a blitz caça-níqueis que precede as grandes festas. Mas a vulgarização desse tipo de crime num segmento tão especial da Polícia Civil sugere que não apenas a Militar precisa de reforma urgente, como apontam os próprios PMs ouvidos na pesquisa da Fundação Getúlio Vargas.

A propósito de reforma, um registro: no Estado que exibe a mais baixa taxa de desemprego do país (3%) e sofre com apagão de mão de obra em diversas áreas, soa estranho que 105 mil disputem seis mil vagas (17 candidatos por vaga) de soldado (R$ 1.927,22 líquidos), em concurso da PM. Como não é função isenta de periculosidade, nem salário de encher os olhos, pode ser mais do que vocação para a tarefa.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

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