Tráfico e associações são velhos amigos

Por fabiosaraiva

xico-vargasA polícia pode contar como novidade, mas não passa de ficção a versão de que foi surpreendida pela participação de dirigentes de associações de moradores nos atentados do tráfico contra as UPPs. Desde que as quadrilhas se encastelaram nas favelas, quem cuida da segurança no Rio sabe como são eleitas essas pessoas, que passaram a ser chamadas de líderes comunitários quando as favelas ganharam o apelido de comunidades. Nem eles são uma coisa, nem o lugar é a outra.

Na maioria dos casos, a influência que exercem tem por base o medo do tráfico que os fortalece e elege. Quem não for amigo, tiver o nome indicado ou a simpatia do tráfico, melhor nem botar a cara numa eleição, a menos que esteja cansado da vida. Exemplos não faltam. William de Oliveira quase dançou e sequer presidia a principal associação da Rocinha. Apenas era influente dentro e fora da favela, e tinha apoio de gente conhecida pela seriedade. Foi parar na cadeia no curso de uma farsa que envolveu o traficante Nem e as bandas podres da polícia e da política. Ainda luta para limpar o nome.

A Rocinha é bom exemplo do controle dos traficantes sobre associações de moradores. Quem é hoje instrui os protestos de moradores por lá? Em qualquer viela o interessado na resposta ficará sabendo que a bula sai da associação, fornecida por mulher ligada a José Rainha. O ex-dirigente dos sem-terra passou longa temporada na área, hóspede do chefe do tráfico. Na Rocinha, nas favelas do Alemão ou em qualquer outra onde traficantes tenham sólida base é assim que a banda toca. Pode ser incômodo para a polícia, mas surpresa não é.

Tentativas de aproximação entre Polícia Militar e populações de áreas de baixa renda controladas pela violência das quadrilhas já houve no Rio. O Grupo de Policiamento de Áreas Especiais (Gpae), criado em 2000 no Pavão-Pavãozinho, então com menos de 20 mil moradores, foi uma dessas. Enquanto durou foi bom, mas não resistiu à pressão do tráfico. Do ponto de vista da soberania da lei e do resgate da cidadania, no entanto, nada se compara ao programa de pacificação que, apesar dos trancos e barrancos, segue em frente.

Os ataques às UPPs, como temos assistido, nunca foram tão bem definidos quanto na frase de um morador de Manguinhos colhida pelos repórteres Ana Cláudia Costa e Bruno Amorim. É o efeito das “frutas podres”, ele disse, a respeito dos criminosos deixados na favela depois da ocupação. Ainda assim – e aí está o fundamento da pacificação – na avaliação desse homem 80% dos moradores se sentem beneficiados. Nos 20% restantes tem de tudo. Até quem recebe dinheiro. Mas serão cada vez menos. Desde que a polícia prenda bandidos e não mate inocentes.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

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