Carioca trata PM como peça de reposição

Por fabiosaraiva

xico-vargasNo mundo, mesmo em capitais menos importantes que o Rio, a morte de um policial em serviço produz comoção capaz de alterar destinos. No mínimo, muda o curso dos dias. Acontece porque cidadãos de bem têm a polícia como parte da sociedade. Ofendida a sociedade, param e tentam refletir sobre a fragilidade que permitiu a um bandido atingi-la.

Aqui, as fotos do enterro do soldado PM que recebeu um tiro de fuzil no Alemão registram a distância exata entre o que o carioca considera sociedade e a polícia que ela mantém a seu serviço. Rodrigo de Souza Paes Leme teve a chorar-lhe a perda os parentes e meia dúzia de colegas.

Nem vagabundos da pior espécie, que tombam nas guerras do tráfico, descem à sepultura com tão rala atenção. Na marra ou pelo medo, morros inteiros silenciam, ônibus levam mesmo quem não conhecia o morto ao enterro e até no asfalto o comércio fecha as portas.

Isso não acontece porque os donos do tráfico precisem do luto para chorar capangas mortos ou confortar-lhes as famílias. Fazem apenas para mostrar que, sejam quantas forem, perdas não lhes reduzem o poder, porque, nas quadrilhas, bandidos são sempre peças de reposição.

A partir daí, se a naturalidade com que o carioca passou a conviver com esse cenário já era preocupante, só ficou mais grave quando construiu o mesmo retrato em relação à polícia. Por isso é que, em apenas 18 meses, 10 policiais lotados no programa de pacificação foram assassinados e o Rio nem piscou.

Fez pior. Depois de esperar 40 anos por uma política de segurança disposta e reformar a polícia e retomar os territórios do tráfico a sociedade a encontrou, mas não consegue distingui-la. Tratou dessas mortes com indiferença idêntica à que deu ao coronel PM que pediu credencial de Carnaval aos bicheiros.

Uma dezena de jovens policiais, em tese, formada para integrar uma nova polícia, foi parar no mesmo balaio do PM que se sente com direito à entrada grátis ou dos que usam a farda para almoçar de graça nos restaurantes. É evidente que há um equívoco nessa mistura, mas nem o carioca, nem a Polícia Militar estão conseguindo desfazê-lo.

A falta de vigor no esclarecimento e agilidade na correção de eventuais tropeços chegam à população como sinais de fracasso do programa das UPPs. Geram frustração no asfalto e terror nas favelas.

Se o projeto é, no curso de três gerações, ter uma PM em que todos os envolvidos com policiamento tenham começado a trajetória por uma UPP pode ser, além de bela ideia, a chance de formar uma polícia dedicada ao cidadão. Parece a única maneira de evitar que o policial também vire peça de reposição.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

 

 

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