O que a CPI do vandalismo busca é palco

Por fabiosaraiva

xico-vargasAno eleitoral e purpurina para brilhar no noticiário que o público consome têm tudo a ver. Por isso é que, ao longo do verão mais escaldante em décadas, a falência da Cedae no comando das torneiras não escandalizou tanto a Assembleia fluminense quanto a tragédia que um grupo de malfeitores atravessou oito meses anunciando e acabou produzindo.

Agora, depois que a polícia enfiou os assassinos de Santiago Andrade nas grades e bateu no emaranhado movimento que os põe nas ruas, a vitrine da CPI do Vandalismo está pronta. Resulta da conjunção de dois fenômenos e ambos decantam a seiva que alimenta os mandatos: interesses políticos devem prevalecer sobre os da sociedade e uma boa foto vale por mil projetos.

A companhia que enche o cofre com a sede alheia e entrega a população à rapina dos carros-pipa – enquanto a água escorre pelas ruas – não atraiu a curiosidade dos deputados. A nenhum interessou esquadrinhar a caixa-preta que, por obra do governo Garotinho, permite ao presidente da empresa corrigir tarifas pelo índice que lhe der na telha (entregar a água é outra história).

Por que, afinal, botar o nariz num lamaçal desses, onde o Estado, dono da empresa, tem os dois pés? Descobrir inconveniências é perigo sempre presente. Mas contra isso não há remédio melhor que as maiorias parlamentares, como a de que o governo desfruta. Bem azeitadas, maiorias se prestam a qualquer papel.

Um deles é, quando convém, tomar o lugar da polícia para sair da mira ou botar adversários no alvo. Assim parecem os primeiros movimentos dessa CPI, pedida por inspiração de um tão jovem quanto obscuro deputado do PMDB de Petrópolis. Nada fará a Comissão que não esteja ao alcance da investigação policial.

Para a polícia, é tênue ainda a informação segundo a qual bandeiras de PSOL, PCdoB e PSTU nos protestos não se destinam apenas a faturar simpatia. O mesmo peso a investigação atribui às fontes de financiamento de black blocs, que reuniriam também gente do PR de Garotinho e nomes ruidosos da oposição, entre os quais Marcelo Freixo.

Na CPI, porém, o que interessa é o palco e o que dele chegará aos meios de comunicação neste ano eleitoral. Há tanta eletricidade no assunto que o requerimento de criação da Comissão obteve quase o dobro das assinaturas que precisava, com a adesão quase completa da oposição. Embora todos saibam que se trata da mais baixa exploração da credulidade do eleitor, ninguém quer parecer contra a investigação parlamentar. Ainda mais depois da pesquisa em que 95% dos cariocas desaprovaram a violência nos protestos.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro


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