Pavor gera o varejo da barbárie

Por fabiosaraiva

xico-vargasCom a inestimável ajuda do Judiciário, não pela aplicação das leis, mas das brechas que levam à impunidade, cariocas e fluminenses avançam na construção de uma sociedade que descobriu na dose diária de barbárie anestésico contra o impacto das chacinas. Já se podem enganchar ladrões de galinha a postes, na zona sul do Rio, ou enfiar três tiros, à luz do dia, na cabeça de um batedor de carteiras, numa rua movimentada de Belford Roxo, sem grande comoção. Menos protestos que dentes arreganhados para os que protestam.

E nem foi um longo caminho; menos de duas gerações de distância para o primeiro corpo jogado numa lixeira de favela, no meio dos anos 1980. Desde então encontram-se corpos em qualquer lugar – principalmente em automóveis roubados por traficantes. Mas já não são notícia. Sem trauma também, ganhou lugar na cultura local bandidos de uma favela passarem nas armas morador de morro dominado por rivais. Em 2008, um grupo de 11 militares do Exército, entre os quais um oficial, vendeu três jovens do morro da Providência a traficantes da Mineira, que os executaram. Mas já não há nenhum militar preso pelo crime.

Nessa trilha, os 12 traficantes que, em 2010, invadiram um hotel, na zona sul do Rio, e fizeram uma centena de hóspedes reféns não ficaram nem dois anos na cadeia. Erros técnicos no processo, bateu o martelo o juiz. Não são poucos os casos em que a Justiça, por princípio cega, atribui à brecha da lei ou furo do inquérito mais consistência que à evidência de autoria.

À sombra dessa desmoralização continuada da Polícia Civil e do esgotamento da Polícia Militar – em patrulhamento, confrontos, UPPs e, desde o ano passado, protestos – os já tão conhecidos grupos milicianos têm arregimentado integrantes. Concentram-se na capital e na Baixada Fluminense, mas agem no estado todo. No Rio, além de favelas da zona oeste, controlam estacionamentos pela cidade, o que não é novo. Mas também fornecem a variadas atividades, comércio entre elas, serviços de segurança que incluem a execução de pequenos bandidos.

O sucesso – ainda que só aparente – desse pessoal e os escassos resultados de Justiça e polícia no controle do crime têm sido o fermento do que cariocas e fluminenses estão vendo nas ruas. Mas não é o que leva uma sociedade a clamar por sangue. Isso é obra do instinto. Dele deriva o medo de sair de casa e não cruzar a próxima esquina, de perder o dedo em que carrega a aliança ou de não ter no bolso quantia que satisfaça o ladrão. É desse pavor que nasce o varejo da barbárie. Talvez se precise de mais de uma geração para resolver isso.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro


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