Lei para pedreiro pobre e vereador rico

Por fabiosaraiva

xico-vargasSão longos e, por vezes, insondáveis os caminhos da Justiça. Neles cruzaram-se há pouco duas providências que, levadas à luz, oferecem pequena medida do que fez rugirem as ruas ano passado. Numa delas, o Tribunal de Justiça bateu o martelo  contra os vereadores. Mandou-os desfazerem-se de 406 cargos comissionados, “boquinhas” abertas com dinheiro público para apaniguados.

Na outra, chegou à mesa do juiz que deverá decidir, talvez esta semana, se o pedreiro Amarildo de Souza pode ser presumido morto. Elizabeth, a mulher dele, precisa disso para pedir à Previdência “pensão por morte de cônjuge”. Amarildo desapareceu no meio de julho, quando testemunhas o viram ser levado por policiais.

A declaração foi pedida pela primeira vez no início de agosto e negada perto do fim do mês, dias antes de a investigação revelar que Amarildo havia sido torturado, asfixiado e morto por PMs na UPP da Rocinha. O inquérito foi encerrado em outubro e os acusados estão na cadeia. Mas até que a Justiça admita a morte a família não verá um tostão da Previdência.

Com o carimbo no papel, Elizabeth terá a vida facilitada se comparada a seus iguais – circunstâncias conhecidas de todos a dispensarão de obter testemunhos sobre a vida em comum com Amarildo. Poderá, então, pedir ao governo o equivalente a um salário mínimo mensal, algo em torno de R$ 900. Mas, só vale a partir do dia em que protocolar o pedido. O que ficou para atrás, desde julho, o gato comeu.

Não é o caso, porém, dos nossos vereadores. Suas excelências não têm perdas a lamentar. Ao contrário, vêm de longe pendurando protegidos no bolso do carioca. São os aspones que infestam os gabinetes. Há muito, ultrapassaram em número os  concursados, já que a Câmara convenientemente ignora essa modalidade há pelos menos 16 anos.

Resultou que, só na tropa de indicados políticos, agasalhava, em 2012, mais de 27 por vereador. Fora os efetivos. Hoje dificilmente se consegue apurar com precisão a bandalheira, mas o Ministério Público avalia que os excedentes custam ao contribuinte mais de R$ 5 milhões anuais.

A Justiça mandou a Câmara rifar esses capangas em 60 dias, mas é pouco provável que aconteça. O recesso acaba em cima do Carnaval e, quando os tamborins calarem, não se falará de outra coisa além da Copa – bem ou mal. Se o Brasil ganhar, no fim da comemoração a Câmara estará de novo em recesso. A partir daí, é hora de pensar no partido e não se demite cabo eleitoral em ano de eleição. Afinal, se a lei fosse igual para pedreiro pobre e vererador rico, talvez Amarildo estivesse vivo e um bando desses doutores desempregado.

 

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro


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