Celular na Vila Kennedy só para bandido

Por fabiosaraiva

xico-vargasDeve-se mais ao habitual deixa para lá que rege a vida parlamentar do que o descaso do executivo a intensa prática, por já mais de 20 anos, do golpe do falso sequestro. Numa época em que o ir e vir de adolescentes e crianças ganha saudável desenvoltura, não é difícil fisgar pelo ouvido um pai, ou mãe, no momento em que o filho está na rua.

Para vagabundo engaiolado em penitenciária nem chega a ser trabalhoso. Basta alugar um pré-pago de colega de xilindró ou de guarda penitenciário. Há nas cadeias quem viva disso. A cada 10 ligações, é grande a chance de encontrar um ouvido desarmado. A partir daí, o desfecho vai depender da insegurança e credulidade da vítima, e do talento do bandido para formular em palavras a alma sanguinária que carrega.

Esse crime é praticado preferencialmente por quem está preso. Primeiro porque há etapas que exigem paciência e tempo, o que bandido no xadrez tem de sobra. Depois, porque é mais difícil ser  flagrado numa cela de penitenciária do que num barraco. Explica-se: o aluguel é por um dia. No seguinte, o telefone estará na mão de outro bandido e vida que segue. Se não deu no dia, vai ter que esperar a ferramenta correr a fila para alugar de novo. Custa R$ 500, por dia.

Curioso, porém, é que no Rio esse crime carrega uma contradição. Sabe-se pelas vítimas, pelos presos e por seus parentes e pombos-correio que as ligações costumam partir das celas de Gericinó, o velho complexo de Bangu. Agora mesmo a Band News FM registrou a prisão de Alciane de Souza. Ela intermediava o golpe armado por um preso de Bangu.

No final de dezembro, a Polícia Civil identificou três bandidões, também trancafiados em Bangu, que aplicavam e terceirizavam o golpe. Haviam criado uma “escola do crime”, para ensinar a jovens criminosos os truques do achaque e faturar uma parte. Um tipo de contrato de assistência com cláusula de sucesso.

Mas, enquanto os criminosos de Bangu usam à vontade o celular como arma, os mais de 120 mil moradores de Vila Kennedy, que os rodeiam, estão impedidos de usá-lo como ferramenta. Nem para o trabalho e muito menos para o conforto das famílias. E não apenas para quem mora encostado nos presídios – celular e internet móvel estão banidos da favela inteira.

A ausência de sinal resulta dos bloqueadores instalados nas prisões para silenciar o crime. Justamente o que não fazem. Até as pedras das ruas sabem, mas a secretaria de Assuntos Penitenciários nega. A Anatel conhece o drama, mas não põe a mão em vespeiro e os deputados, que teoricamente representam os moradores de Vila Kennedy, fingem que não é com eles.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

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