Frustração do gari devia envergonhar carioca

Por fabiosaraiva

xico-vargas“Tinham que vestir uma dessas em cada um que vem aqui”, gritou o gari, no calçadão do Leblon, por onde eu caminhava com minha mulher. Levei um susto, parei e, por meio segundo, pensei em olhar para trás. Vai que é com outra pessoa? Mas não tinha erro. De pé uns três metros à frente, ele apontava direto para o meu peito, para a frase impressa na camiseta; um pedido de cuidado com a cidade. E aí entendi tudo, não fosse ele gari.

Lá longe, onde acabava a faixa de areia, um mar bastante calmo embalava muitas centenas de garrafas pet e outras tantas de cascas de coco. Lixo que havia ficado na praia e a tempestade da véspera arrastara para a água. Estava diante de um homem negro de seus 30 anos e estatura mediana, enfiado dos pés à cabeça no uniforme laranja da Comlurb. Suava feito um condenado ao trabalho nas fornalhas mostravam as manchas escuras que lhe pontilhavam a roupa.

Era o sujeito, pensei, que amanhece de vassoura nas mãos. O cara que prepara a praia bem cedo para o carioca dourar ao sol e esfriar a cabeça num mergulho. Estava diante do personagem  que limpa as calçadas já tão destruídas, varre as ruas, desentope bueiros para a elite dourada da zona sul não se afogar na sujeira e ainda lhe sobram sorriso e fôlego para fazer graça no Sambódromo. Mas nada havia de engraçado na cena com aquele rapaz de olhar especialmente triste.

Bem ao contrário. Ele, ali na calçada, e o grupo de garis à beira d’água, recolhendo cada pet e coco que o mar devolvia revelavam, sim, mais uma baixaria do comportamento nativo. Se, em cinco escassos meses, o programa Lixo Zero chegou a 55 bairros e fechou o ano tendo reduzido em 58% o volume de lixo no chão, o que acontece na orla? A imagem do lixo no mar sugere que o carioca, quando vai à praia, deixa a educação em casa.

Duas semanas depois de a Guarda Municipal ter distribuído um manual de boas maneiras nas praias da zona sul, a velha falta de respeito ao próximo está de volta. Pessoas que pretendem apenas caminhar, pais ensinando crianças a andar de skate e carrinhos de bebê estão nas ciclovias como se nada tivesse acontecido.

É disso que o gari está tratando, quando olha com pesar para todo aquele lixo flutuante. Por um momento pensei em perguntar-lhe o nome, mas desisti. Preferi pensar nele, dali para frente, com o nome de todos os garis. Principalmente pela frase com que ele encerrou o nosso breve encontro. “A gente faz o dobro do esforço, mas não consegue completar o serviço”, disse com a voz carregada de frustração. Fiquei com vergonha pelo carioca.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br.  Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

 

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