A cidade sempre perde em ano eleitoral

Por fabiosaraiva

xico-vargasNuma cidade em que expressiva parcela da população está dispensada do cumprimento das posturas municipais que regem a ocupação do solo, não espanta que apartamentos doados para famílias que até há pouco moravam em área de risco estejam sendo vendidos. Ao contrário, faz todo o sentido.

Não é o mesmo movimento, mas se assemelha ao surto de vendas que tomou o morro do Vidigal, com a rápida valorização dos imóveis, depois que a PM botou o traficantes para correr e ocupou a favela. Quem tinha um bom palmo de terra com aquela extraordinária vista para o mar passou-o nos cobres e foi se pendurar na próxima encosta.

Quando as regras, além de frágeis e pouco claras, são mal fiscalizadas, as pessoas tendem a crer na fantasia do almoço grátis. Governos praticam essa modalidade de embuste com o dinheiro dos impostos para, aparentemente, distribuir bondades. Na verdade estão de olho no bolsão de votos.

O título de propriedade de um imóvel no Bairro Carioca, em Triagem, onde os apartamentos estão sendo vendidos, ou em qualquer favela da cidade é garantia de vida nova para qualquer família que o tenha recebido. Seja para fincar raízes, seja para passar adiante e pendurar um barraco na encosta até a próxima enxurrada.

Enquanto não houver controle efetivo sobre o que e como se pode construir na cidade a baderna sequer vai piorar. Continuará apenas do jeito que está. A prefeitura está empenhada em retirar moradores das áreas de risco e faz muito bem. Assim, indica  famílias para imóveis construídos e inaugurados com pompa pelo Governo Federal, com financiamento da Caixa.

A partir daí, começa a zona. A Caixa faz as regras que, por frouxas, acabam descumpridas. No caso de Triagem, por exemplo, o contrato diz que o beneficiado não pode passar o imóvel adiante por 10 anos. Mas quem estabeleceu esse prazo e com amparo em que lei?

E se nove anos depois a família precisar se mudar para o interior do Estado, ou para o Nordeste? E os compradores de agora vão ser postos para fora? Vão morar debaixo do viaduto com os filhos? E quem vendeu vai preso? Vai devolver o dinheiro do qual já gastou parte fazendo outra casa, talvez em área de risco? Vai nada.

Não é por falta de leis, mas de vontade de aplicá-las, que as áreas de risco, como encostas e margens de rios, estão cobertas de construções. E vão continuar assim. Se no calendário normal já é difícil encontrar políticos dispostos a contrariar esse segmento de eleitores, em ano eleitoral é impossível. Por pior que seja para a cidade, vai continuar como está.

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