O velho entreposto reabre as portas

Por fabiosaraiva

xico-vargasDuas mudanças planejadas pelos chefes de quadrilhas, antes de debandar das favelas retomadas, amadureceram e tornaram-se visíveis no último mês do ano: a multiplicação dos pontos de venda em cada área ocupada e o acentuado crescimento do número de jovens em postos de mando e controle nessas novas  “bocas”. Ambas são resultado da marcha da ocupação pela polícia em oposição à necessidade das facções de manter o faturamento, que sustenta traficantes presos e toda a estrutura montada ao longo de décadas.

Quem vive hoje em teritórios retomados testemunha o aparecimento de nova modalidade de terror. Aí se misturam a ação destrambelhada da polícia, que ainda não domina completamente o cenário, com o dedo nervoso de uma nova geração de bandidos em busca de poder no crime. Consequência disso têm sido os frequentes tiroteios em favelas com UPPs. Na maioria dos episódios a polícia atribui essa fuzilaria à guerra de facções por territórios. Não é exatamente assim.

Na Rocinha, talvez pelo tamanho, pela importância que teve como entreposto de drogas e pelos malfeitos da polícia depois da UPP, a troca de chumbo tem sido praticamente diária e sempre entre políciais e traficantes. Jean, bandido de pequena expressão que acabou expulso da quadrilha dona do morro, virou pé-de-chinelo, não representa facção alguma. Esconde-se na mata, aqui e ali assalta uma “boca”, atrás de dinheiro e drogas, e está jurado de morte pelos ex-parceiros. Para os moradores, o terror está na velocidade com que surgem novos pontos de venda.

De cinco grandes “bocas” até a instalação da UPP, nas 32 localidades em que a Rocinha está dividida agora contam-se ao menos 70. Na Rua 1, por exemplo, havia uma “boca”, hoje são quatro. Idem para área conhecida como Roupa Suja, que já tem sete. Na Via Ápia, onde por muitos anos houve Feirão de Droga, nos fins de tarde, a proximidade da polícia acabou com a festa. Em compensação, a Rua 3, que não tinha nada, tem agora movimentado ponto.

Com isso, é inevitável que a droga seja carregada em mochilas, como se o portador fosse estudante, e vendida no meio da rua, geralmente em becos entre duas rotas de fuga, à luz do dia e com o movimento normal na favela. Ao menor sinal de perigo, o jovem traficante aperta o dedo na pistola e sai em disparada. É nesse clima que vive quem mora no interior da favela, onde a polícia, por conveniência, pouco marca presença. Esse é um dos motivos por que a Rocinha está voltando a ser o velho entreposto da droga. Por enquanto, já retomou o abastecimento de Niterói, nas favelas dominadas pela facção.

O jornalista Xico Vargas mantém a coluna ‘Conversa Carioca’ na rádio BandNews Fluminense FM, em dois horários, e na página da emissora no Facebook, além da coluna ‘Ponte Aérea’ em xicovargas.uol.com.br. 

Escreve no Metro Jornal do Rio de Janeiro

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