É mais fácil ser bandido na PM

Por Carolina Santos

xico-vargasEra para ser apenas efeito colateral da ocupação de favelas por UPPs a sobrevivência do que o projeto de segurança do Rio classificou como tráfico residual. Mas a prática se revelou mais letal. Além dos desempregados que arrastam, as quadrilhas descobriram que sustentar chefes, suas famílias, pagar pedágio na cadeia e eventualmente pingar o arrego da banda podre exige muito dinheiro. Aí entra a lógica do varejo.

Comerciante com uma só lojinha não sustenta a família dele, a da mulher e mais os tios e sobrinhos. A saída no tráfico é ampliar o território e espalhar “bocas” favela afora para multiplicar os ganhos. Daí parte a guerra que tem oposto quadrilhas de traficantes nas áreas ocupadas. É briga de bandido, mas está puxando a pacificação para o buraco. Nos serviços públicos, que mal começaram, já se percebe.

Programas como o Estratégia Saúde da Família, que chegou a 80% de cobertura (marca inédita no atendimento preventivo de saúde no Rio), estão no meio do conflito. Há menos de um mês, funcionários de duas Clínicas de Família atravessaram horas de terror no fogo cruzado de traficantes do Alemão. Gente que conhece as quadrilhas conseguiu uma trégua para que saíssem. Mas quem volta e com que disposição para um trabalho desses? O resultado é o espantoso consumo de tranquilizantes por esse pessoal.

Há favelas em que obras simples conseguem virar o cenário de cabeça para baixo. O alargamento da rua 4, na Rocinha, jogou por terra os altos números da tuberculose. Mas quem alarga ruas e becos no meio de um tiroteio? Drama semelhante atravessa a instalação de outros serviços triviais no asfalto, mas desconhecidos das favelas, como a entrega de correspondência ou a coleta de lixo.

Em algumas favelas a densidade chega à inacreditável marca de oito vezes a da cidade formal. Imagine-se o que significa mapear ruas, implantar CEPs e números que permitam entregar cartas num labirinto desses. O mesmo fenômeno triplica o custo da retirada do lixo em relação ao asfalto. Fica difícil? Claro que fica, mas nada suspende a obrigação do poder público de fornecer os serviços. Só a violência.

O controle dos territórios para consolidar a pacificação era o fundamento das UPPs. Mas, depois da quadrilha fardada que se instalou na Rocinha para torturar e matar, ficou tudo mais difícil. A morte de Amarildo e o número dos que o supliciaram  trouxeram duas evidências sobre a PM: 1) a corporação está eivada de criminosos; 2) pode ser mais fácil recrutar marginal para as fileiras do que para quadrilhas que disputam terreno a tiros com a concorrência.

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