Diga-me algo e direi quem és

Por fabiosaraiva

rubem-penz colunistaUma tese: nossas profissões definem mais do que o ganha-pão, chegando a criar hábitos, cacoetes e a influenciar nossa visão de mundo. Descobri, por exemplo, que compradores leem o preço de tudo o tempo inteiro, vislumbrando oportunidades e traçando comparações. Já sabia (por experiência própria) da capacidade de professores de educação física em notar uma escoliose a quilômetros, criadores publicitários em fazer trocadilhos compulsivamente, músicos acompanharem melodias em instrumentos imaginários. Assim, numa delegacia, profissionais diferentes descreverão um mesmo crime de forma muito diversa:

Advogado: Ela chegou à janela do carro e pediu que eu descesse o vidro. A priori, sua postura corporal, asseio e olhar seguro me indicaram o julgamento de presunção de inocência. Ipsu facto, tornei-me vítima de um assalto a mão armada, tipificado no Artigo 157 do Código Penal.

Dentista: Ela chegou à janela do carro e pediu que eu descesse o vidro. Reparei nos incisivos bem alinhados com os caninos e pré-molares, gengivas saudáveis dando uma aparência irrepreensível. Quando vi, já estava anunciando o assalto. Nenhum sinal de mau hálito.

Engenheiro: Ela chegou pela face norte da esquina, vinda do passeio público em direção à janela do motorista. Solicitou que eu descesse o vidro. Julguei ser ela uma pessoa prudente por manter uma distância segura do veículo, caso ele inadvertidamente entrasse em movimento. Foi quando anunciou o assalto.

Sociólogo: Ela chegou à janela do meu automóvel e pediu que eu descesse o vidro. Vestia-se e se portava aos moldes da camada mais bem favorecida da sociedade, a elite branca historicamente exploradora da mais-valia. E, com um revólver, fez comigo o que costumam fazer com o povo.

Estilista: Ela chegou com regata preta, rendada, compondo com a saia palito em tons de pérola. Suas pernas ficavam ainda mais alongadas com a delicada sandália com salto seis em preto e branco. De sua carteira Dolce & Gabbana, retirou um lindo revólver com cabo de madrepérola. Nossa: causou quando disse que era um assalto!

Cirurgião plástico: Foi mais rápido do que uma reconsulta. Mas pude reparar que seu nariz era levemente empinado e sem desvios de septo. Uns 86 centímetros de seios, 90 de quadril, cintura escultural. Eu indicaria a ela uma lipo na parte interna das coxas…

Escritor: Uma luz difusa tornava o entardecer da cidade uma experiência comovente. Porém, havia prenúncios de conflito anunciados pelos poderosos tímpanos da Orquestra Filarmônica de Viena executando a Sinfonia Número 3 de Mahler no som do carro. Maus presságios a confirmar as palavras de minha amada que, na manhã, contou-me sobre um sonho ruim…

Rubem Penz é escritor, músico, publicitário, baterista e compositor. Autor de “O Y da questão e outras crônicas” e coordenador da oficina literária Santa Sede. Seu site é rubempenz.net Escreve no Metro Jornal de Porto Alegre

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