A quarta gaveta da cozinha

Por fabiosaraiva

rubem-penz colunistaNão bastasse ser o primeiro dia útil do horário brasileiro de verão, segunda-feira saí da cama uma hora mais cedo do que o habitual por causa de uma suave e prazerosa alteração de rotina. Antes de o sol nascer, já havia abanado para quem partia, depois de servir-lhe o café da manhã. Porém, minha refeição matinal não contempla o café propriamente dito. Esse, o preto, reservo para logo antes de começar a escrever, quem sabe para servir de combustível aos neurônios. Foi quando indisfarçáveis fragmentos de borracha denunciaram a urgência na troca do vedante da cafeteira italiana. Tinha certeza de que tinha peças de reposição e estavam guardadas em algum lugar. Pensei: estão, provavelmente, na quarta gaveta da cozinha.

Lá em casa, a organização das gavetas segue a seguinte lógica: na primeira, ao alto, estão os talheres metodicamente acomodados em seus nichos. Na segunda, em sistemático caos, a miscelânea – das bombas de chimarrão ao descascador de batatas; dos abridores ao ralador; da infalível tesoura às colheres de pau. A terceira gaveta acomoda diversos tecidos: esfregões da pia, panos de prato, guardanapos, toalhinhas (algumas com o nome dos filhos bordados, ainda do tempo das creches) e os calendários do Zaffari. Muitos anos de compras… Por fim, repousam na quarta gaveta toalhas de mesa, manuais de instruções dos eletrodomésticos (Deus do céu, inclusive de alguns que já se foram) e objetos que precisavam ser guardados “em algum lugar”. Dentre eles, quase certo, os vedantes de reposição da cafeteira italiana.

O problema é que quartas gavetas jamais são abertas impunemente. Enquanto se procura aquilo que pretendemos achar, encontramos o que fora esquecido por conveniência. E, entre letras coloridas de “Feliz Aniversário”, algumas velas ainda virgens com idades variadas e panos coloridos, vi uma melancolia meio escondidinha, embalada num plástico transparente, guardada entre um sorriso e uma lágrima. Revi cenas felizes, luminosas, hoje distantes no tempo. Revivi emoções verdadeiras, daquelas simultaneamente raras e ao alcance de todos, guardadas numa quarta gaveta de cozinha. Isto é, acomodadas fora da vista, fora dos trilhos da rotina. “Em algum lugar”

Não bastasse estar no primeiro dia útil do horário brasileiro de verão, marca indelével da passagem do tempo, incauto, fui remexer em lembranças com a silenciosa trilha sonora de uma grande casa vazia. Para meu consolo, encontrei também o que precisava e, em minutos, no ar da graça, eu respirava o revigorante perfume do café. Logo a seguir, escrevi uma mensagem cheia de esperança pelo WhatsApp. E, antes mesmo de sair de casa, pude sentir a chegada do sol depois de ele passar tantos dias escondido. Meu velho pai gostava das manhãs de segunda-feira. Reconheci suas razões.

Rubem Penz é escritor, músico, publicitário, baterista e compositor. Autor de “O Y da questão e outras crônicas” e coordenador da oficina literária Santa Sede. Seu site é rubempenz.net Escreve no Metro Jornal de Porto Alegre

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