Pela lei vaca amarela

Por fabiosaraiva

rubem-penz colunistaTodo grupo de trabalho, seja num departamento de serviço público, seja em algum setor da iniciativa privada, pode ter seus membros divididos entre morenos e claros, altos e baixos, elegantes e descolados. A priori, porém, tais classificações não determinam rotinas ou influenciam resultados sendo, tão somente, desejáveis marcas diferenciais. Por outro lado, há uma divisão capaz de travar a produtividade e, para piorar, é mais comum do que se imagina: o grupo ser composto de um time que faz e outro que apenas reclama.

É fácil saber quem compõe qual parte – basta necessitar de pessoas para liderarem uma comissão ou força-tarefa que envolva trabalho extra, representatividade, responsabilidade (se o trabalho for não remunerado, tanto melhor). Jogo com chances de dez para um que os voluntários ou eleitos para cumprir a missão estarão entre os que fazem. Com a mesma probabilidade, o pessoal que reclama será hábil em arrumar justificativas para tirar o corpo fora. Isso, quando comparecerem à reunião – farejam sacrifícios pessoais de longe.

Com a tarefa no colo, o que fazem aqueles que fazem? Exatamente o que se espera deles: fazem. Desdobram-se, arrumam tempo, descolam informações, levantam fundos, mobilizam outros parceiros (geralmente ocupantes do mesmo time). Ainda assim, tudo o que é feito estará sujeito a contratempos, falhas e atrasos. Pior: custos além do orçamento. E, nas reuniões seguintes, serão defrontados com os que reclamam. Estes, com a mesma exatidão, farão imediatamente o papel que deles se espera – reclamar. Mais: dirão como deveria ter sido feito e por que deveria ser de outra forma.

Eu já vi e vivi tantas vezes essa cena que arrisco generalizar, mesmo reconhecendo o risco das generalizações. E, almoçando com um professor amigo semana passada (ele próprio lamentando a patrulha sobre uma das inúmeras tarefas de liderança que cumpre), pensei em mandar para o Congresso Nacional um projeto para formularmos o que batizei de “Lei Vaca Amarela”. Seria aplicada em todas as reuniões de trabalho. Parágrafo único: o primeiro que falar reclamando de algo que falhou será imediatamente eleito para fazer ele mesmo da próxima vez. Valerá também para condomínios, clubes ou todo coletivo que envolva tarefas de poucos em prol de muitos. Agora, preciso apenas encontrar um ilustre deputado para isso, e espero que ele faça parte do grupo dos que fazem.

Apesar de isso ser apenas um desabafo, entre vocês, leitores, haveria voluntários para ajudar? Também dá para ficar reclamando…

Rubem Penz é escritor, músico, publicitário, baterista e compositor. Autor de “O Y da questão e outras crônicas” e coordenador da oficina literária Santa Sede. Seu site é rubempenz.net Escreve no Metro Jornal de Porto Alegre

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