Xingue o juiz com autoridade!

Por fabiosaraiva

rubem-penzAbro o jornal e, a folhas tantas, está a notícia do falecimento do professor Antônio Carlos Beck Mendes Ribeiro. Dou-me conta de que eu estava naquela que foi sua última turma na cadeira de Futebol 1 da Esef/UFRGS, 30 anos atrás. Ele sequer terminou o semestre. Porém, carismático como poucos, deixou um legado inestimável para os que acreditam no termo vocação quando o assunto é magistério. Diante de um grupo de estudantes ávidos por ar livre – no fim das contas nosso futuro ambiente de trabalho – ele magnetizava a atenção dentro de uma sala de aula. Quando nos deparamos com mestres assim, o segredo é sempre o mesmo: a mistura bem dosada de conhecimento, malandragem, comunicação, leveza e paixão. Sua matéria era futebol, mas se transportarmos essa receita para a química, matemática, literatura ou qualquer outro ramo do conhecimento, estaremos diante de um professor nascido para fazer a diferença. Conhecia o esporte como poucos, pois cumprira em sua vida praticamente todas as funções relacionadas: foi jogador, técnico, comentarista e professor (ele próprio formado na Esef). Transpirava verdade. Habitava uma posição rara, entre a arrogância e a galhofa. Ou, como ele próprio definiria, no lugar reservado às prostitutas (não diria assim) velhas.

Seu único livro do qual tenho notícias não é um compêndio tático ou técnico. Também não versa sobre preparação física, psicologia do esporte ou fisiologia. O título da obra nos dá um perfeito resumo do conteúdo: “Xingue o juiz com autoridade!”. Consciente de viver num país com milhões de técnicos e comentaristas, sua preocupação maior era com o conhecimento e o domínio das regras e dos fundamentos. Numa época em que não havia a patrulha do politicamente correto, o livro se permitia, inclusive, adotar o disseminado termo juiz para nominar o árbitro. Também falava de bandeirinha ao se referir ao árbitro auxiliar. Bons tempos! Lembro que nenhum aluno do Mendes Ribeiro poderia concluir o semestre sem ditar, absolutamente de cor, a regra do impedimento. Também suas exceções deveriam estar na ponta da língua. Espécie de pedra filosofal, a lei do impedimento era considerada por ele como a responsável pela beleza do jogo, pois, ao limitar o deslocamento dos atacantes ao movimento dos defensores adversários, abria espaço para a genialidade das jogadas de progressão individual e penetração sem bola. Logo, iluminava drible, passe, domínio e chute. E, se o árbitro e seus auxiliares errassem na marcação do impedimento, considerava xingar quase um dever.

Fiquei triste ao saber que o professor Mendes Ribeiro teve um final de vida sofrido, com uma década em estado vegetativo antes da morte. Um enfisema o deixou em posição de impedimento, e lá permaneceu longamente, talvez xingando silenciosamente o juiz: um erro, sem dúvida. Uma injustiça, diria eu.

Rubem Penz é escritor, músico, publicitário, baterista e compositor. Autor de “O Y da questão e outras crônicas” e coordenador da oficina literária Santa Sede. Seu site é rubempenz.net Escreve no Metro Jornal de Porto Alegre

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