A marquesa saiu às cinco horas III

Por fabiosaraiva

rubem-penzO cronista Maicon Tenfen resgatou por esses dias um antigo texto de Paulo Mendes Campos, o qual versava sobre a indisposição de Paul Valéry em escrever frases como “A marquesa saiu às cinco horas”. Ambos reescrevem a oração em diferentes estilos, e nos divertem. Aproveitando a onda, faço o mesmo, ao estilo dos colegas cronistas aqui da aldeia.

“A marquesa, lábios carnudos, coxas torneadas, tatuagem tribal no tornozelo e louros cabelos ondulados pousando suavemente nos ombros, saiu às cinco horas. Sem calcinha.” (David Coimbra)

“Consta nos livros que a marquesa saiu às cinco horas pela porta da frente. Mentira. Na realidade ela saiu pela janela, mas isso ninguém tem coragem de dizer. Só eu. Acostumo-me a falar sozinho.” (Juremir Machado da Silva)

“O sol prometia deitar-se suavemente sobre o Guaíba, colorindo aquele fim de tarde primaveril na Praça da Matriz, quando, pouco antes da Ave Maria, às cinco horas, a marquesa saiu. E trocamos olhares de eternidade.” (Liberato Vieira da Cunha)

“A marquesa podia sair às sete, sete e meia, até às oito horas da noite. Mas não: saiu às cinco. A marquesa, assim como todos nós, tem medo. Esse é o legado de nossa política de segurança: uma cidade sitiada, em prisão domiciliar.” (Diego Casagrande)

“Pablo saiu às cinco horas. Essa é a história que interessa, nenhuma outra. Se a marquesa saiu também, outro dia, depois, certamente esteve movida pelo ignóbil motor da inveja.” (Paulo Sant’Ana)

“Ah, a marquesa. Mais do que legado de fidalguia, fez por merecer esta alcunha: marquesa! Nobre, nobríssima marquesa para sempre. E, precisamente, inesquecivelmente, indubitavelmente às cinco horas, como houvera de ser, saiu.” (Ruy Carlos Ostermann)

“Às cinco horas, a marquesa saiu. Saiu da cama. Saiu de cena. Saiu de cima. Saiu do colo. Saiu do cume almejado pela paixão. Saiu porque mulheres sonham com os homens que as elevem às alturas, mas temem esses homens. Então saem.” (Fabrício Carpinejar)

“Nunca é fácil sair. Buscar dentro de si a dose certa de desprendimento, resultado da maturidade tranquila de quem viveu algumas perdas, sempre necessárias para darmos valor ao que é essencial. A marquesa saiu: às cinco horas.” (Martha Medeiros)

“Paulo Mendes Campos e Maicon Tenfen nos disseram com talento e criatividade que a marquesa saiu às cinco horas. Quem sou eu para duvidar?” (Rubem Penz)

Rubem Penz é escritor, músico, publicitário, baterista e compositor. Autor de “O Y da questão e outras crônicas” e coordenador da oficina literária Santa Sede. Seu site é rubempenz.net Escreve no Metro Jornal de Porto Alegre

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