Um dia para envelhecermos

Por Carolina Santos

rubem-penzHá uma verdade quase incontestável: envelhecemos um dia por dia todos os dias. E tudo segue assim corriqueiramente até o momento em que – espanto! – constatamos o resultado das cobranças do tempo em suas suaves prestações. Porém, incluí a palavra “quase” de propósito. Existem alguns dias a nos envelhecer muito mais do que outros ditos ou havidos como normais. Dias cuja intensidade burla a constância das horas, minutos e segundos. Foi o que tentei explicar para meus filhos na manhã de sexta-feira passada, enquanto o mundo inteiro repercutia a morte de Nelson Mandela.

Habito o gigantesco platô denominado vida adulta – e por muito tempo ainda (cuido do corpo, mente e espírito com tal objetivo). Nesta fase da vida, é muito comum estarmos convivendo com pessoas 15, 20 anos mais jovens ou mais velhas em situações de muita paridade. Dividimos a avenida engarrafada sem que a diferença de idade determine algo; buscamos soluções para projetos com plena cooperação; fazemos trocas comerciais ou afetivas em pé de igualdade; comandamos e somos comandados sem que o peso dos anos influencie. Isso, até um determinado fato aparecer com relevância. Por exemplo, a queda do Muro de Berlim. Diferentemente
de saber mais ou menos detalhes sobre o fato, eu, ao contrário dos adultos jovens, senti na pele a grandeza do evento. Aquele dia 9 de novembro de 1989 riscou mais fundo o calendário, marcando minha lucidez com sua severidade.

Vejamos outro caso: às vésperas de sediarmos mais uma Copa do Mundo, todos os veículos de imprensa investem no balanço dos certames passados, especialmente o nosso anterior. Posso ler muito a respeito do que aconteceu nos meados do século passado, conhecer cada detalhe do jogo entre Brasil e Uruguai – final da Copa e eternizado com a alcunha de “Maracanaço”. Nada do que eu fizer, no entanto, será capaz de me levar até o dia de 16 de julho de 1950, pois nasci mais de dez anos depois. Faltou meu silêncio perplexo com o gol de Ghiggia. Minhas lágrimas não beijaram o solo: sou muito jovem. Quem vive em determinado período acaba por ser moldado pelas circunstâncias históricas do momento, enriquecendo os parâmetros capazes de julgar o que se passa ou se passou.

Nelson Mandela é o primeiro grande personagem real
da História que meus filhos veem desaparecer. Sob algum aspecto, um dos maiores, senão o maior, que eu mesmo vejo. Ser contemporâneo de um homem dessa magnitude e compreender a dimensão de seus feitos pode parecer pouco relevante para eles, agora. Porém, no futuro, haverá uma apropriação toda especial para temas relacionados ao fim da segregação étnica, possível apenas para quem vivenciou os acontecimentos, tornando-os mais experientes (mais velhos). Isso, é claro, na esperança de que o Apartheid e outras dominações desta natureza permaneçam como passado e não voltem a se repetir. Nem o Maracanaço…

Rubem Penz é escritor, músico, publicitário, baterista e compositor. Autor de “O Y da questão e outras crônicas” e coordenador da oficina literária Santa Sede. Seu site é rubempenz.net Escreve no Metro Jornal de Porto Alegre

 

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