Carta para uma despedida

Por Carolina Santos

rubem-penzMeu filho,

é chegado o tempo das despedidas. Tempo do adeus e de alguns possíveis nunca mais – estejas preparado. Tempo de ir além com tua história na bagagem.

Estás, agora, com justiça e mérito, embevecido com o frisante sabor da conquista: deixas para trás a base da tua formação – ensino fundamental e médio. Período em que não há saída: das estruturas celulares ao cálculo do movimento retilíneo uniforme, da tabela periódica ao feudalismo, do período neoclássico à progressão geométrica, tudo te foi ofertado e, igualmente, cobrado. Fase em que, pelo contato com o amplo conhecimento humano, colheste subsídios para as escolhas. É quando, quase sem perceber, preparamo-nos para voos mais audaciosos.

Do alto de onde estás, o horizonte se abre infinito. 360° de visão, vales e ventos. Caminhos e descaminhos. Destinos. A vertigem do tudo é possível amainada por uma direção a tomar – nem que seja uma rota que mudarás com o tempo. Até aqui, nós, teus pais, zelamos ao confiar tua formação à instituição de onde partes. Eis que a bússola migra para tuas mãos e, dela, precisarás tirar o sentido. Ponto de chegada transformado em plataforma de partida.

Deixar a escola é um pouco mudar de bairro, de cidade, de país. Por isso, em cada colega haverá mais do que um contemporâneo – serão para sempre conterrâneos. Digo mais: deixar a escola é o abrupto sair de casa de muitos irmãos. Gente com quem conviveste durante anos a fio numa rotina de encontros quase só comparável com a da família de sangue. Como de irmãos, conhecemos manias e esquisitices. Vimos perder dentes e ganhar espinhas no rosto; compartilhamos bons e maus momentos. O sorriso infantil jamais se apagará da face dos teus ex-colegas. Eles serão espelhos do tempo.

Os mestres, ao menos com os quais conseguiste ser mais próximo, guardarão enorme carinho por ti. E deles terás exemplos de vida – leve-os no coração. O chão que pisaste será para sempre dos teus pés. Os livros serão tua memória. As janelas, tua saudade. Guardarás os ruídos do ginásio, o cheiro da cantina, a luz do pátio. Podem passar trinta anos e, nem assim, o simples cruzar pela fachada da tua escola deixará o peito indiferente.

Toda partida nos faz assim, feliztristecidos. Abrace professores e funcionários. Apertado, longamente, abrace os colegas. Respire fundo os ares que serão antigos na tua existência ainda tão jovem. Colha a intensidade dos segundos regada com tuas lágrimas. Crescer é bom e, um pouco, dói também. Felicidades e boa sorte, meu filho!

 

Rubem Penz é escritor, músico, publicitário, baterista e compositor. Autor de “O Y da questão e outras crônicas” e coordenador da oficina literária Santa Sede. Seu site é rubempenz.net

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