Não sei mais sorrir!

Duvidar de fato é pensar. O simples fato de desconfiar do que te dizem já é uma forma quase matemática de reduzir a chance de ser enganado.

Este é um ano bom pra isto. Mais um de promessas em vão passeando pelos nossos ouvidos cansados de palavras que nunca terminam em gestos de verdade. Pese na balança o quanto te foi prometido e o que foi entregue de verdade? Equação simples do falar fácil dos arquitetos de ideias, só pensadas em benefício próprio e não realizadas também em benefício próprio depois do objetivo atingido na urna.

Aprendi durante a vida que uma forma tranquila de não precisar se afastar de ninguém é primeiro não me aproximar. Claro que na minha profissão de arranjador de palavras e de pretenso formador de opinião (nunca fui candidato a isto) fica cada vez mais impossível pelo menos a mínima convivência, mas também aprendi a estar me mantendo ausente. Tipo ouvir mais e deixar que o outro ou outros falem à vontade, afinal já percebi que a maioria quer se ouvir, e não argumentar.

Por isto de vez em quando prefiro escrever. Primeiro para não ter que ouvir e até mesmo num segundo plano esquecer o que já ouvi e tenho certeza de que quem falou tem mais interesse em convencer o interlocutor em benefício próprio, uma coisa que dizem ser arte política.

Lendo Fernando Pessoa, chego à conclusão de que devo ser mais tolerante porque não tenho certeza de nada. Nem tenho mais uma opinião firme porque eu mesmo não tenho convicção de que tenha razão.

Tento viver cada vez mais no meu mundinho, afastado da convivência social, que foi o primeiro passo para me decepcionar menos, esperar menos dos outros porque como diz o poeta cada vez mais tem menos gente querendo ser amiga de verdade.

Quando quero PALAVRAR, como também fala o gênio da língua portuguesa, escrevo, ora nesta coluna, que já há algum tempo tenho o carinho da sua leitura, às vezes pra mim mesmo.

Aprendi a esperar menos, desejar menos, sonhar menos. Isto me deu mais tranquilidade e me fez solitariamente mais feliz. Não é um conselho nem um pretensioso manual de vida. É a minha vida.

Gostaria que fosse diferente. Mas com a tristeza de milhões de desempregados e miseráveis pelas ruas do meu país, sinto que perdi o direito de sorrir.