Das mortes dos jovens negros

Por Carolina Santos

jorge-nascimento colunistaO recente episódio das declarações preconceituosas, de cunho racista, do professor da Ufes, sua repercussão nacional, seus desdobramentos jurídicos, principalmente a reação da comunidade universitária, podem servir de amostra dos dilemas que a sociedade brasileira tem de enfrentar. Hoje, as informações circulam rapidamente, e a forma como foi organizado o ato de repúdio às declarações do docente prova que essa comunicação rápida pode ser usada de forma efetiva e producente. Voltando aos argumentos do Doutor: A visão determinista, estreita, excludente, preconceituosa e rasa de seus argumentos demonstra como é difícil a consolidação de uma sociedade na qual a “inserção do outro” seja favorecida e fomentada. Os argumentos cientificistas (que apelam à genética e à biologia) são de uma simplificação que pareceria inocente, mas não, remetem ao cientificismo racista dos séculos 18, 19 e início do 20, que geraram a perpetuação de estereótipos tidos como verdade até hoje. No Regimento da Universidade Federal do Espírito Santo, CAPÍTULO II – DAS FINALIDADES, DOS OBJETIVOS E DAS FUNÇÕES, consta que um de seus objetivos é: “suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional e possibilitar a correspondente concretização, integrando os conhecimentos que vão sendo adquiridos numa estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração”.

Acredito que a fala do “colega” subverte a própria noção de Universidade. Seus comentários – ideologicamente perversos, socialmente mesquinhos – não condizem com a ideia de uma Universidade pública contemporânea, que deve ser o local onde práticas inclusivas sirvam como motivação para que sejam revistos padrões conservadores de maneiras de se pensar, para que, de forma enriquecedora, o processo educacional seja uma ponte de elevação duma categoria que ainda pode ser denominada como humana. No Brasil, segundo pesquisa do sociólogo Julio Jacobo Weiselfisz, de 2002 a 2012 os homicídios de jovens negros cresceram 32,4%. Se não pensarmos nesses fatos e buscarmos saídas, teremos a perpetuação de uma sociedade perversa, passiva, em que a lógica de exclusão da Casa Grande e da Senzala continuará evidenciando o processo de extermínio físico e de morte social daqueles que ainda pagam o altíssimo preço de serem herdeiros da escravidão que também formou o nosso Brasil.

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