A eleição e a fratura exposta

Por fabiosaraiva

jorge-nascimento colunistaO segundo turno das eleições para presidente da República criou um polarização que, infelizmente, foi esclarecedora. Deu foco e voz ao obscurantismo latente que esteve oculto, ou ocultado, escamoteado na falsa democracia social e racial brasileira. Nas redes sociais e em alguns violentos embates nas ruas, o que se viam eram as dualidades transformadas em antagonismo. Era o embate (e não o debate) que anunciava os lados: favelado X elite; “nordeste (e nordestinos) burros que alimentam o atraso”; bolsa-esmola para vagabundos ignorantes que são a escória do país… No fim das contas, foi a eclosão do ódio contra aquilo que o Brasil tem como maior patrimônio: seu povo. Foi, é, e continuará sendo, o fim da falácia da cordialidade e da boa convivência. Lembro-me que, nos idos dos anos 1980, fui a um debate sobre racismo no Brasil, e um professor negro dos Estados Unidos que pesquisava o tema e as práticas no Brasil disse que o racismo brasileiro era mais perverso que o de seu país, pois lá os negros tinham sempre uma arma apontada contra seu peito e que, no Brasil, era apontada pelas costas. Estamos assistindo, vivendo, sofrendo o choque de realidade que transparece: resquícios fundamentalistas, racistas, homofóbicos, xenófobos que afloram e florescem juvenis, atléticos, brancos, ricos, poderosos. O verdadeiro movimento black bloc está por vir. Ocorrerá quando subcidadãos, vestindo as camisas negras de suas peles, descerem dos morros, saírem das periferias e enfrentarem ideológica, corporal e esteticamente as castas dominantes, que não terão mais direito de gritar: “Voltem para suas favelas”. Nessas eleições vi senhoras de um “bairro nobre” exigindo que as funcionárias de um supermercado votassem em seu candidato preferido, com o autoritarismo de uma sinhá de engenho, com as “boas intenções” de quem sempre sabe o que é melhor para esses pobrezinhos ignorantes que prestam serviços em seu lugar. Deprimente. A vitória apertada, que permitiu a reeleição da presidenta Dilma Rousseff, e as reações arcaicas, com resquícios de 1964 (época do Golpe Militar), são fratura exposta, mostram os desafios que essa jovem Nação e sua democracia incipiente terão de enfrentar. Como negro e filho de migrantes nordestinos me sinto estranho: feliz por ocupar meu espaço como cidadão na sociedade, e “cabreiro”, pois sei também o que represento para o imaginário de muitos.

Jorge Nascimento é doutor pela UFRJ,   professor do Departamento de Línguas e Letras da Ufes e escreve quinzenalmente neste espaço 

 

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