Outros tempos

Por Carolina Santos

jorge-nascimento colunistaAs coisas, como as pessoas, como a Natureza e o Universo, estão num processo de  mudança, mais violento ou gradual, visível ou microscópico. Mudança não quer dizer,  necessariamente, evolução. Percebemos, de forma mais clara, o quanto cresceu aquele sobrinho menino que não víamos há um ano. Passamos pela mesma árvore todos os dias e, num deles, percebemos que ela já chegou à altura do quarto andar daquele prédio, e pensamos: Como ela está grande (Claro que esse fato somente se dá para alguns que ainda se dão ao luxo de olhar árvores urbanas – Pura perda de tempo!). Lembro de um  filme chamado Paris-Texas, no qual o protagonista havia perdido a memória e há quatro anos não via seu filho que estava sob os cuidados de seu irmão e de sua cunhada, perguntou há quanto tempo estava “fora”, o irmão respondeu: há quatro anos. Ele não tinha referência do significado desse período de tempo, então perguntou a idade do menino. Oito anos. Concluiu: Estive fora pela metade da vida de um garoto. As temporalidades, no mundo de hoje, não são lineares, o tempo pode cambalear em ziguezague. O tempo de um pescador pantaneiro, com os ciclos das águas, marés, luas, dias e noites, não é o mesmo tempo de uma pessoa da cidade que exerce mil funções e vive no corre-corre de uma grande metrópole. Acho que estão ocorrendo mudanças rápidas na percepção de certos fatos e na maneira como a sociedade os encara e lida com eles. Para o bem e para o mal, as Tecnologias de Informação e Comunicação permitem que os fatos e factoides se espalhem com a mesma velocidade dos vírus biológicos. Faço essas considerações sobre a relatividade do tempo para pensar em dois fatos ocorridos ultimamente, um em nível nacional e outro no âmbito local. Primeiro, a repercussão das imagens da torcedora do Grêmio gritando e ofendendo o goleiro Aranha. E depois, um jovem integrante de um grupo de RAP que postou frases ofensivas contra mulheres feministas. E a reação nas redes digitais, as discussões que ambos os fatos repercutiram. A indignação de pessoas e grupos que se solidarizaram com aqueles que foram e são vítimas das ações demonstra que muitos setores da sociedade, que historicamente sofreram e sofrem abusos e preconceitos diversos, não querem mais penar calados e estão buscando formas de reação ou reparação, seja jurídica ou não. Sei lá, mas até parece que, finalmente no Brasil, estão chegando Outros Tempos.

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