Filhos do desrespeito

Por Gustavo Varella

Experimente o leitor perguntar por José Datrino nas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Salvo a remota hipótese de fazê-lo a alguém conhecedor da cultura popular carioca, a resposta será certamente um “nunca ouvi falar”. Trata-se do imortal Profeta Gentileza, que cobriu pilastras de viadutos e outras superfícies da cidade com suas poesias, profissões de fé e com o mantra genial pela verdade e pela simplicidade que carrega: “gentileza gera gentileza”. Já que por simples tem-se aquilo que não demanda maiores explicações, a verdade absoluta que ousei apontar na expressão está no fato de que relações humanas são pautadas, salvo quando havidas com um psicopata, pela reciprocidade, ainda que nem sempre rigorosamente equilibrada, entre seus atores. Explico: ao tratar bem uma pessoa, desejar-lhe bom-dia no elevador, sorrir para ela ao chegar a um balcão de atendimento, as chances do protagonista receber de volta uma resposta educada e simpática são imensamente maiores do que de receber um xingamento ou uma descortesia. E isso não é de hoje, mas data dos primórdios da humanidade. Não por menos os navegadores portugueses dos anos 1500 incluíam em seus porões de carga milhares de artefatos manufaturados de ferro (facões, machados e outros) e bugigangas atrativas aos nativos (espelhos, contas e botões coloridos e outros) que eram presenteados ou trocados por produtos ou presentes muito mais valiosos na Europa da época. Infelizmente, nessa ciranda do relacionamento, o inverso também é verdadeiro: quão mais desrespeitado é o ser humano, maiores as chances dele se tornar um desrespeitador crônico. Um dos sintomas mais flagrantes da doença social que nos afeta cada dia mais é o desrespeito crônico que pauta as relações cotidianas em nosso país. Somos desrespeitados quando aqueles que elegemos para defender nossos interesses se locupletam de seus cargos e mandatos, desviando e corrompendo recursos públicos, nomeando para assessorá-los gente sem a menor capacidade técnica ou condição moral para fazê-lo. Somos desrespeitados pelo pouco caso aos nossos clamores por melhores escolas, postos de saúde, estradas, segurança. Somos desrespeitados por desculpas cretinas nos escândalos públicos. Somos desrespeitados quando representantes eleitos para um cargo assumem uma função e deixam o mandato para um desconhecido exercer. Somos desrespeitados quando brincam com nossa inteligência em escabrosas transações. Somos desrespeitados quando autoridades usam do poder que lhes é conferido para coonestar pilantragens em nome de uma tal governabilidade. É deveras difícil esperar uma resposta diferente, nas urnas, de um cidadão tão desrespeitado em sua condição, crença, voto e cidadania. Ele responde com o fígado e termina, com seu voto, escolhendo não o melhor ou o menos pior, mas aquele que, momentaneamente, é a resposta mais adequada e à altura da agressão que sofreu do oponente imediato. Quando o faz, termina desrespeitando a si próprio.    

Contenido Patrocinado
Loading...
Revisa el siguiente artículo