Pesquisas

Por fabiosaraiva

gustavo varella cabral colunistaUma piada inglesa adverte: “Tanto em 1981 quanto em 2005 o príncipe Charles casou-se, o Liverpool foi campeão da Europa, a Austrália perdeu a final do cricket e o Papa morreu. Pelas estatísticas, se o príncipe Charles resolver se casar pela terceira vez, avisem o Papa!”. Digo isso porque as famosas pesquisas eleitorais têm como instrumento fundamental a estatística. Os resultados de uma pesquisa estatística podem ser usados tanto para fazer o bem quanto para fazer o mal, porém, quando tais resultados estão inseridos em um contexto onde prepondera um determinado tipo de interesse (econômico, político, religioso etc), eles provocam reações e efeitos que ultrapassam os limites éticos e tornam imprescindível a reavaliação de sua adequação ou possibilidade de convivência em um sistema democrático. Eleitores brasileiros votam por impulso, por paixão, por raiva, por interesse ou por lógica, além do fato de ser obrigatório o voto. Isso faz com que se sedimente no inconsciente do eleitor, em alguns mais e em outros menos, a ideia do voto útil, que consiste em votar em quem está “na frente” para não “perder o voto”. Esse fenômeno é o santo graal de todas as pesquisas eleitorais encomendadas (e de algumas manipuladas mais ou menos, conforme a conveniência do interessado). Se quer que o candidato “X” pareça mais simpático do que é realiza-se a pesquisa onde o mesmo inaugurou um hospital ou uma escola, da mesma forma que se o queremos mais eficiente, que perguntemos aos que foram beneficiados por determinado programa. É evidente que temos dezenas de empresas e instituições de pesquisas sérias e comprometidas com a ética em suas atividades, mas pouco se pode fazer diante de divulgações piratas ou adulteradas em redes sociais dado à flagrância e ao curto espaço de tempo disponível para o conserto dos danos provocados por uma empreitada criminosa. E isso só adquiriu o potencial explosivo que vemos hoje porque nos habituamos a ver em tais informações, mesmo as precisas, mais do que um retrato instantâneo do momento. Muitos de nós nos baseamos nas pesquisas como a bússola da verdade absoluta. O problema é que ao contrário do que ocorre quando compramos um produto julgando-o apenas pela propaganda ou pela estatística, o eleito não pode ser devolvido ou deixado num canto do armário: passa quatro anos agindo em nosso nome. Isso me faz lembrar uma tia querida, já falecida, que comprou um belo aparelho de som porque leu que ele era o preferido dos consumidores. Mas era “surda como uma porta”, a titia…

Gustavo Varella Cabral é advogado, professor, especializado em Direito Empresarial e mestre em Direito Constitucional.

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