Em busca do diálogo

Por fabiosaraiva

carlos-lindenberg-colunistaSe as previsões é de que a presidente reeleita Dilma Rousseff vai ter dificuldades com o próximo Congresso eleito no último pleito, a derrota do governo na votação, terça-feira, dos chamados conselhos populares, mostra que as eleições deixaram, de fato, sequelas que precisarão de tratamento especial. Com efeito, sabe-se que o atual Congresso é caracterizadamente conservador e cônscio de seus privilégios – e não perdê-los, claro. Só isso poderia explicar a recusa ao projeto de conselhos populares, que, em outras palavras, significa chamar a população a participar mais da vida política do país. O Congresso, a começar pela Câmara, entendeu diferente e pronto. O governo não teve votos suficientes e por isso perdeu. Resta-lhe lamuriar. Mas não foi apenas por que o Congresso é conservador que o governo perdeu. Na verdade, boa dose dessa derrota pode ser creditada ao fato de que as eleições deixaram marcas profundas em antigos aliados do governo, a começar pelo presidente da Câmara, o deputado Henrique Alves, que não teve o apoio da presidente Dilma nem do ex-presidente Lula para disputar o governo de seu estado, o Rio Grande do Norte, e acabou perdendo. Era óbvio que, numa situação dessas, o magoado Henrique Alves não teria a menor boa vontade em ajudar o governo a evitar a derrota.

O caso de Henrique Alves se multiplica numa casa em que a fidelidade ao governo nunca foi confiável. Assim como também não merece que se ponha  a mão no fogo pela lealdade do PMDB, com algumas exceções. Um exemplo: ontem mesmo foi confirmado novamente como líder do governo o deputado fluminense Eduardo Cunha, um desafeto pessoal da presidente Dilma e que não a apoiou no Rio de Janeiro, onde liderou uma ala do partido para ficar com o senador tucano Aécio Neves. Ora, esses dois exemplos – e outros virão, enquanto durar a ressaca das eleições, pelo menos – mostram bem como a presidente Dilma vai ter que mudar sua forma de se relacionar com o Congresso. Na próxima legislatura, que começará em fevereiro, haverá 28 partidos representados na Câmara dos Deputados –hoje são 22 – o que exigirá da presidente reeleita uma nova disposição para o diálogo e o exercício da paciência. Sem falar no clima de animosidade que o resultado eleitoral produziu na oposição. O que levará inevitavelmente a uma relação conflituosa com os que perderam a eleição. Resta saber se os aliados, que voltarão com algum ressentimento de seus estados, engrossarão ou não o coro dos descontentes.

Carlos Lindenberg é jornalista, colunista do Metro Jornal e comentarista da TV Band Minas. Escreve no Metro Belo Horizonte.

Conteúdo Patrocinado
Loading...
Revisa el siguiente artículo