Mobilidade fluvial, por que não?

Por Pro Coletivo

Nos primórdios, as cidades brasileiras olhavam os seus rios com respeito, usufruindo de suas águas correntes para o lazer e a navegação, mas com a urbanização desordenada e o modelo de transporte focado no carro individual, que exigia vias, túneis e avenidas expressas, os rios se transformaram em depósitos de esgoto e lixo.

Parece curioso, mas os hoje lodosos e doentes rios Tietê e Pinheiros, em São Paulo, foram cenários de pura saúde no início do século 20, usados para banhos, provas de remo e de natação. As águas eram limpas e claras, época em que outros rios paulistanos corriam límpidos e a céu aberto.

Com o tempo, os rios da capital paulista foram retificados, enterrados e esquecidos. Estima-se que São Paulo tenha de 300 a 500 rios embaixo dos nossos pés, sob ruas, casas e edifícios. Se esses rios enterrados corressem livres e limpos não teríamos as enchentes atuais, causadas pela impermeabilização do solo, entre outros fatores.

O arquiteto e urbanista Alexandre Delijaicov, que coordena o Grupo Metrópole Fluvial, da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP, estuda há mais de três décadas a navegação fluvial e aposta no projeto de seu grupo: a construção de um hidroanel metropolitano que prevê a conexão e o pleno aproveitamento das hidrovias que circundam 14 cidades da Grande São Paulo. “É preciso resgatar e integrar novamente os rios urbanos”, diz Delijaicov.

Ele se inspirou em países como Holanda, Alemanha, França, Estados Unidos e China, usuários de suas vias navegáveis para transporte de cargas e pessoas. Além dos ganhos econômicos, a pegada ecológica é expressiva. “Com a potência de um motor de caminhão podemos transportar, em uma embarcação, o equivalente à carga de 40 caminhões. E a proposta do grupo é usar embarcações ‘autopropelidas’, com motores elétricos”, diz o coordenador e professor da FAU-USP, lembrando que o transporte hidroviário pode ser 7 a 8 vezes mais barato que o rodoviário, e 3 a 4 vezes mais barato que o ferroviário.

O projeto, que estima uma redução de 30% no tráfego de cargas em São Paulo, prevê a construção de um ambiente urbano com uma infraestrutura que preserve as águas, ao mesmo tempo em que oferece espaços públicos de convivência e lazer na orla fluvial. As embarcações seriam destinadas ao transporte de cargas e passageiros e também ao lazer e passeios turísticos. Como acontece em várias cidades do mundo, poderemos enfim aproveitar todas as potencialidades dos rios para nos movermos coletivamente e de forma sustentável. Não é impossível, mas é preciso acreditar e unir forças diversas – universidade, governos, empresariado e sociedade – para chegar lá.

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