Chutões e sofisticação

Por Cadu Doné

Na trincheira de extremos reducionistas que tomaram o Brasil, até assuntos pequenos parecem sucumbir às interpretações dogmáticas, fanáticas. Os debates sobre o papel da tática no futebol andam padecendo por essa tendência. De um lado, uma turma que recai numa espécie de objetividade idiota repaginada, que colocaria no chinelo os alvos de Nelson Rodrigues outrora. Do outro, os adeptos de um tipo de tosquice, de anti-intelectualismo frequentemente travestido de “discurso raiz”.

O Athletico-PR tomou um gol bizarro contra o Flamengo tentando sair trocando passes desde a própria área. O rubro-negro carioca, com sua ótima/incessante marcação por pressão, já tinha aproveitado de falhas do adversário nesta seara na vitória sobre o Cruzeiro, no Mineirão, diante de quase 40 mil torcedores.

Lances como estes citados têm acalorado o debate no país a respeito da ideia de se evitar a todo custo a ligação direta. Chama atenção como determinados arautos de uma suposta modernidade se provam unidimensionais ao tentarem tergiversar o óbvio: por mais que seja louvável em larga medida a estratégia de não rifar a posse gratuitamente, há sim em voga uma aplicação insensata, obsessiva deste expediente. Não se trata de uma divisão excludente, absolutista: “um jeito, ou outro”? Os jogadores podem muito bem ser orientados/treinados a procurar o controle, a criação que dificulta o combate do oponente sem se tornarem, por instruções do chefe, indevidamente robotizados. Ao conjunto cabe fugir dos chutões, buscar associações mais conscientes, ok; daí a ter pavor, uma patologia que contraindica mandar a bola para frente de modo a impedir riscos desnecessários, vai uma diferença gritante – e são muitas as equipes que, em nome de uma filosofia, perdem o bom senso ao aplicá-la; no fundo, ao pecarem pelo extremismo, acabam dando munições aos próprios detratores daquilo que, com mais temperança, seria a melhor opção.

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