Pensamento binário

Por Cadu Doné

O jogo do ano acontece hoje no futebol brasileiro e boa parte dos debates a ele associados acaba descambando para velhas dicotomias, batidos determinismos; aquela mania da pauta fácil: técnicos estrangeiros ou tupiniquins? Afinal, o futebol praticado no Brasil é atrasado? Nosso problema é uma espécie de “excesso de tática”, ou o exato oposto?

É curioso como no país o pensar binário, viciado, repleto de cacoetes para se ancorar em tentáculos “palpáveis”, parece intransponível. Se Renato Gaúcho prevalecer diante de Jesus, se o Flamengo terminar o ano no “cheirinho” – expressão também requentada em demasia sobretudo na mídia fora do Rio, repleta de integrantes que acham bonito uma postura “crítica” com o rubro-negro (sem se referir ao próprio público, é fácil jogar para a galera) –, discursos simplórios, que resvalam invariavelmente na xenofobia, na linha do “quem é esse portuga aí?”, “o gringo ‘Nutella’ perdeu para o boleiro ‘raiz’”, ganharão força. Não é um eventual sucesso do ótimo Grêmio, no bom trabalho de Portaluppi, e/ou, por exemplo, um título do forte Palmeiras, que necessariamente apagará as defasagens intelectuais do nosso futebol. Um cenário oposto nos resultados, óbvio, por si só, também não haveria de embasar lógicas que levam ao outro extremo: “não há nada de bom sendo feito por aqui”, coisas do tipo. Entre o provincianismo e o complexo de vira-lata, raramente encontramos o equilíbrio.

Algo análogo ao que se vê nas discussões acerca dos nossos técnicos e os de fora pode-se notar em divagações em torno de qual seria o desempenho de times daqui em ligas europeias. O Flamengo lutaria pelo título da Premier League ou nem flertaria com o G6 na terra da Rainha? Provavelmente, nenhuma destas proposições é verdadeira – e no fundo, essas reflexões são especulativas demais. Cravar que as melhores equipes daqui estão no mesmo nível do primeiro escalão do velho continente soa um erro; dizer que não teriam competitividade para concorrer contra esquadrões medianos de lá, um exagero. E o que vemos, em larga fatia das opiniões, peca por uma coisa, ou outra – a ignorância (até na acepção da palavra, no sentido de falta de noção do que se passa mundo afora), ou a idealização exacerbada.

Lendo livros sobre os trabalhos de treinadores no exterior – a “Grande Aérea” tem vários publicados –, acompanhando os certames mais badalados do planeta, apurando de formas diversas, fico com a sensação de que, em geral, há muita coisa mais sofisticada, racional, profissional do que o praticado no Brasil no que tange à tática, ao treinamento, ao diálogo com ciências distintas. Se existe uma parcela, digamos, mais direta e imediata dos nossos técnicos nessa equação, para realmente entender todo o contexto necessitaríamos de uma abordagem macro, que abarca aspectos educacionais, culturais do país, como um todo. E nossos dirigentes, o “modelo de negócio” dos clubes, também contribuem bastante para a perpetuação do achismo mal embasado, do anti-intelectual.

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