O descontrole de Bolsonaro

Por Carlos Lindenberg

Cultivador de polêmicas, provocações e outras tolices, o presidente Jair Bolsonaro vai ter que dizer, no Supremo Tribunal Federal, quem matou o pai do presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, em quais circunstâncias e por que, sabendo quem foi, não mandou apurar. Há outras perguntas na interpelação que Felipe Santa Cruz fez ontem no STF contra o presidente que ainda nesta semana teria vilipendiado a memória de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da OAB, na verdade um desaparecido da ditadura militar que vigorou no país entre 1964 e 1985. Fernando Santa Cruz foi preso pelo regime militar em 1974 e nunca mais foi visto – o presidente da OAB tinha dois anos de idade na época em que o pai desapareceu.

Nesta semana, ao comentar a facada que tomou num ato de campanha, em Juiz de Fora, no ano passado, ao falar da inimputabilidade de Adélio Bispo, ocasião em que a OAB evitou na justiça que o sigilo telefônico da defesa fosse quebrado, Bolsonaro parece ter perdido o controle e disse que sabia quem matou o pai de Felipe Santa Cruz e que se ele quisesse poderia contar, mas que o presidente da Ordem não iria gostar. Reabrir feridas, muitas ainda não completamente cicatrizadas, é um exercício perigoso mormente para um presidente da República, de formação militar – Bolsonaro foi expulso do Exército quando era capitão, sendo absolvido no STM – e menos ainda da forma jocosa como foi feita, o que só aumenta o sofrimento de quem purgou os rigores daquela época.

Felipe Santa Cruz advertiu que o presidente teria que responder pela sua fala no STF. A surpresa de ontem foi que vários ex-presidentes da OAB resolveram assinar a petição como advogados do atual presidente, numa grandiosa manifestação de repúdio às declarações do presidente da República. Mas o que explica essas constantes polêmicas e provocações de Bolsonaro? A que serve tudo isso? Há quem explica isso de duas formas. Primeiro, o presidente é verbalmente descontrolado mesmo. Segundo, ele faz isso para manter o seu eleitorado em constante atividade, ainda mais agora quando já se lança candidato à reeleição. Mas não custa lembrar a Bolsonaro e a outros homens públicos uma velha lição mineira: “a língua pode ser o chicote de sua alma”.

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