Análise política: Juiz no banco dos réus

Por Carlos Lindenberg

Não fosse o clássico entra Brasil e Argentina, a estrela do dia, ao invés de Messi ou do presidente Bolsonaro no Mineirão – me recuso a chamar aquilo de arena – teria sido o ministro Sérgio Moro, da Justiça e da Segurança Pública.

Moro depôs durante mais de sete horas numa comissão conjunta da Câmara dos Deputados, mas não conseguiu ou não quis sair do rame-rame que vem entoando desde que, a partir do primeiro dia das divulgações do Intercept, dia 9 de junho, quando pisou na bola, vem repetindo.

E o que diz o ex-juiz da 13ª Vara Criminal de Curitiba? Que não reconhece os textos divulgados, que não se lembra, que já não tem o telefone corporativo, que algumas falas podem ter sido editadas e que, na verdade, se tem alguma coisa não há nada relevante no que vem publicando o site do jornalista Gleen Greenwald.

E foi mais ou menos assim que Moro se comportou terça-feira. Sorte e azar dele. Sorte porque pouca gente o viu nesse cantochão, como se sobre ele não pesam graves acusações, a principal delas a de que foi parcial no inquérito da Lava Jato – o que trará pesadas consequências se o Supremo Tribunal Federal acolher a ação movida pela defesa do ex-presidente Lula.

Azar porque no final, depois de ouvir o que nunca ouviu, foi chamado de “ladrão” pelo deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) e a sessão teve que ser interrompida antes que terminasse com troca de tapas entre os deputados. O PSL agora quer denunciar o deputado do PSOL no Conselho de Ética da Câmara.

Mas é preciso entender que o ex-juiz estava ali exercendo um papel: de quem está sob ataque e precisa de um escudo para se defender. E o escudo era o cantochão de que não tem nada demais nas conversas, com a ressalva de que teriam sido editadas. Ocorre que a primeira reação do ministro foi de, em tese, admitir a veracidade das matérias.

Ou seja, ele não as desmentiu no primeiro momento, apenas as colocou em dúvida e depois se entregou quando pediu desculpas ao MBL por tê-los chamados de tontos. Mas foram sete horas de tédio, quebrado com a intervenção fora de tom do deputado Glauber Braga. Na terça, o juiz estava no banco dos réus.

*Carlos Lindenberg é colunista do Metro Jornal. Escreve neste espaço às quintas.

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