Dilemas éticos

Por Cadu Doné

O “complexo de vira-lata” revelado na bajulação unilateral, cega, apriorística do futebol europeu – sempre me recordo de Nelson Rodrigues, criador da expressão, mas também das falas de Ariano Suassuna a respeito da elite tupiniquim (mais especificamente, sua obsessão com a Disney); a arrogância com relação a times e seleções que não integram certos grupos mais tradicionais; a desinformação sobre o que se passa em grandes centros do esporte mundial, aliada a um ufanismo/bairrismo que esfrega sua ignorância em nossas caras: três defeitos que parecem, de determinada maneira, contraditórios, excludentes, mas que se misturam em abundância no Brasil.

É extremamente comum notarmos, por exemplo, as mesmas pessoas louvando por osmose, sem relativizações, sem prudência, a Liga das Nações da UEFA, só pelo glamour associado ao Velho Continente – será que o certame não configura um excesso do calendário de seleções? –, e desprezando desmedidamente a Copa América. Uma competição com Brasil, Argentina, Uruguai, Colômbia e Chile não apresenta um bom nível competitivo? Será que valorizar o que é nosso, carrega boa dose de tradição, e é feito por personagens interessantes – as seleções citadas e quase todas as outras participantes contam com jogadores pra lá de qualificados – não teria algum sentido?

A Conmebol não transmite credibilidade. Mas CBF, UEFA e FIFA também não. O caso aqui não é defender o errado dizendo que todos cometem equívocos graves; é reconhecer que se enveredarmos por alguns caminhos, os dilemas éticos que rondam o futebol se desnudarão mais complexos. Dizem que quando se acompanha a modalidade muito de perto, perde-se o estômago para torcer. É uma reflexão no mínimo instigante. Em defesa do Beautiful Game podemos invocar a inocência, os aspectos da essência humana materializados dentro das quatro linhas invocados por Camus para fundamentar seu amor pelo jogo – sobre isso, a Ilustríssima veiculou ótimo texto de M. M. Owen há algumas semanas; a diferenciação entre instituições e os malfeitos realizados por seus integrantes – a relação de torcedores, o aspecto de bem cultural do povo transcenderia atos espúrios dos engravatados. Confesso que eu mesmo me pego em frequente dúvida quanto a estes pontos conflitantes. Não dá para julgar nem quem desanima, pega determinada ojeriza pela perda de sentido em algo tão contaminado pela sujeira, pelo mercantilismo exacerbado, e pelo distanciamento total de qualquer essência inicial, nem quem se diverte, ama, e, sem se sujar, deixa fruir potências irracionais do seu âmago por meio de um escape como o esporte.

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