Aulas de jornalismo

Por Cadu Doné

No segundo episódio do ótimo Podcast “Muito mais do que futebol”, disponibilizado no dia 16 de Maio, Mauro Cezar Pereira, Lúcio de Castro e Leandro Iamin nos brindaram com debate riquíssimo sobre uma espécie de inversão de valores que anda comum na mídia esportiva brasileira: a perda de espaço para reportagens investigativas de fôlego, que demandam apuração longa, cuidadosa, embasamento. Já escrevi fartamente a respeito do tema. Fiquei com receio de soar repetitivo. Mas a qualidade das reflexões dos três mencionados, e o trabalho excepcional de Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo revelando inúmeras falcatruas no Cruzeiro me obrigaram a voltar ao tópico.

Quando ministro palestra em faculdades fico um pouco perplexo com duas coisas, predominantemente: em primeiro lugar, como fatia estrondosa dos estudantes de comunicação fazem o curso somente para entrar na editoria de futebol – vejam bem: nem digo de “esportes”. Ter essa opção, em si, não é um problema. A proporção do fenômeno, em termos sociológicos, até, para a compreensão de tendências, de como o labor jornalístico é enxergado num aspecto macro, me parece digna de atenção. Num outro momento, uma constatação talvez mais intangível: espanta como espalhou-se e enraizou-se uma aura de glamourização superficial da profissão. Não há, nestes numerosos casos que encontro entre os estudantes, sequer flerte, qualquer ponto de contato com a figura clássica do repórter. Coragem, intelecto, dizer o que as assessorias não querem e, acima de tudo, ter trabalho, ler muito, penar no duro ofício de pesquisar sem a certeza se será adquirida a musculatura necessária para publicar? De jeito nenhum… O importante é aparecer, é número de seguidores; jornalista enquanto celebridade…

Para essas pessoas, algumas dicas: o texto de Michel Laub no Valor Econômico sobre o livro “Repórter” – e, claro, a obra propriamente dita –, de Seymour M. Hersh (Todavia, 384 págs, tradução de Antônio Xerxenesky); as reflexões de José Trajano sobre a overdose na mídia esportiva de programas “opinativos” e “humorísticos” – felizmente, o “Pontapé Inicial”, com ele e Dudu Monsanto, voltou; a agência “Sportlight” – do já citado Lúcio de Castro –, que no nome já começa ganhando de um a zero, na prática constrói a goleada, e recentemente marcou do meio-campo em consistente apuração sobre Mario Celso Petraglia; a longa e incrivelmente detalhada matéria da “New Yorker” desmascarando o escritor Dan Mallory; por aí vai…

Tomara que a excelente matéria do “Fantástico” no domingo inspire, inclusive em Minas, uma reflexão sobre o que é jornalismo. E um alerta: o principal antídoto para o que predomina por aí não é só “opinião corajosa”; na ânsia por não parecer integrante da manada vira e mexe detecta-se, digamos, um tipo de “rebeldia sem substância”. Como Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo fizeram, é preciso munir-se de farto material e qualidade intelectual para sustentar determinadas coisas. 

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