Viagem de desgastes

Por Carlos Lindenberg

Difícil imaginar qual teria sido o pior momento dessa viagem do presidente Jair Bolsonaro a Israel. Se o fato de prometer mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém e não conseguir entregar o prometido, frustrando os anfitriões e irritando os vizinhos dos países árabes, o erro histórico de considerar o nazismo como de origem esquerdista – quando o próprio Monumento do Holocausto mostra o contrário – aliás, repetindo o erro de seu chanceler Ernesto Araújo; ou o despropositado comentário do senador Flávio Bolsonaro que mandou o Hamas ir pelos ares. Enfim, a viagem de Bolsonaro foi uma série de equívocos sem que trouxesse para o país nada de absolutamente novo ou de concreto – só protocolos e acordos bilaterais, alguns repetidos.

Na verdade, essa viagem foi um equívoco político. Com ela, Bolsonaro quebrou o distanciamento político que o Brasil mantinha em relação aos constantes conflitos de Israel com os países árabes. E olha que o presidente não conseguiu mudar a embaixada como prometeu na campanha, optando em boa hora por abrir um escritório comercial em Jerusalém, o que não acalmou os árabes que compram anualmente três bilhões de dólares do agronegócio brasileiro. Tanto que dia 10 a ministra da Agricultura vai receber embaixadores de 51 países árabes, todos “revoltados” com o alinhamento já estabelecido por Bolsonaro com seu inimigo histórico, Israel.

No meio desse palheiro em chamas, o filho do presidente acha espaço para responder ao grupo extremista Hamas, que protestava pela visita de Bolsonaro ao Muro das Lamentações, tuitando um desaforo vazado na seguinte expressão: quero que vocês se explodam. Talvez caindo na real, o senador logo depois apagou a mensagem, que a essa altura só fez aumentar o desconforto dos árabes com a visita do pai.

Ainda bem que passou despercebido da diplomacia brasileira – ou esquecido de propósito – o fato de ter sido um brasileiro, Oswaldo Aranha, quem possibilitou de alguma maneira o reconhecimento pela ONU do Estado de Israel. Aranha era quem presidia a Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1948, quando a ONU reconheceu Israel como Estado soberano, embora a própria ONU tenha deixado de cumprir alguns compromissos compensatórios para o mundo árabe. Mas isso é outro história. Tanto que em Jerusalém tem uma praça com o nome de Oswaldo Aranha.

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