A impunidade não vale

Por Carlos Lindenberg

A sentença é do prefeito Alexandre Kalil, ontem: “quem deveria estar preso, não está”. E quem esteve com Kalil nesses últimos dias sabe que essa não é uma frase de efeito, tão somente. O prefeito de Belo Horizonte pensa exatamente assim. Para Kalil, quando a Samarco destruiu Bento Rodrigues, matou 19 pessoas e destruiu o rio Doce, em 2015, se alguém tivesse sido preso, vale dizer alguém da direção da Vale, a tragédia de Brumadinho não teria acontecido. Mas, repete Kalil, ninguém vai preso por coisas desse tipo. E pergunta: “cadê, tem alguém preso?” Foi o que ele disse essa semana ao comentar com alguns visitantes, sempre fumando um cigarrinho eletrônico após um café, abismado ainda com a impunidade que incentiva atos desse tipo. E vai além: “quando houve a enchente no Vilarinho, eu fui lá – não sobrevoei de helicóptero não, fui lá, e assumi a responsabilidade pelo drama dos que perderam a vida. E prometi que aquilo não voltaria a acontecer no córrego Vilarinho”.

O prefeito Kalil garante que se depender da prefeitura, de fato, enchentes como aquelas do final do ano passado não voltarão a acontecer no Vilarinho. Para tanto, o prefeito diz que reuniu uma equipe multidisciplinar, conseguiu recursos da própria municipalidade e vai gastar algo em torno de R$ 380 milhões para evitar que a área volte a matar e a transtornar a vida de boa parte da cidade. De acordo com Kalil, nem precisa mudar a legislação, ao se referir ao caso da Vale em Mariana e Brumadinho. Basta aplicar a lei ou, para ficar melhor, basta que o presidente da Vale ou de uma mineradora dessas aí assinar um termo de compromisso, pelo qual ele assume a responsabilidade no caso de tragédias desse tipo. “Se acontecer, pronto, vai preso. Se vai continuar na cadeia para o resto da vida, a justiça decide. Prende, o advogado pede para soltar, o Ministério Público torna a pedir a prisão, o juiz manda prender, até provar se ele é ou não realmente culpado”. E concluiu a conversa: “o que não pode é o responsável pela tragédia ficar solto andando para cima e para baixo, como se aquilo não lhe dissesse respeito. Foi a impunidade de Mariana que construiu o desastre de Brumadinho. Antes de tomar posse, manda o presidente da companhia assinar um termo de compromisso para você ver se as coisas assim continuam a acontecer no país”, raciocina Kalil, que, ontem, voltou a dizer isso numa rápida conversa com a imprensa.

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