Minas e a Vale

Por Carlos Lindenberg

Começa a correr a notícia de que a Vale pode paralisar as suas atividades em Minas Gerais, estado que se tornou um dos gigantes da mineração mundial. Tudo pelo desastre que ela provocou em Brumadinho, onde devem ser contabilizados mais de 300 corpos – alguns que nem serão achados. Acrescenta-se à informação o fato de que na verdade a Vale estaria se sentindo assaz pressionada por multas e bloqueios de dinheiro por parte da Justiça mineira. Além do que, acrescente-se também, o minério ora extraído em Minas já não seria mais de primeira qualidade, esgotando-se as jazidas de hematita para dar lugar ao barato filito, de forma que seria a Vale deixar Minas Gerais e transferir suas unidades para o eldorado de Carajás, onde o minério é farto e de primeira qualidade.

Pode ser. Mas a Vale, apesar de tudo, tem deveres para com Minas Gerais, e não apenas porque aqui nasceu e aqui floresceu. A Vale tem um passivo humano, histórico e financeiro com Minas não apenas pelo crime cometido em Brumadinho, mas também, e antes deste, pelo praticado em Mariana. Não bastassem esses dois argumentos, é de ver que a antiga Companhia Vale do Rio Doce tem ainda contas a ajustar com a própria cultura mineira, pois a história de Minas se funda exatamente na exploração mineral. Ademais, uma possível saída da Vale se assemelharia mais a uma fuga, diante desse gigantesco passivo que a companhia tem com nosso estado. E isso jamais seria permitido e muito menos perdoado. Em paralelo, a paralisação das atividades da mineradora significaria tirar dos cofres do estado nada menos que R$ 1 bilhão de reais por ano, levando ao naufrágio centenas de municípios que vivem da exploração mineral. E Mariana é, mais uma vez, um bom exemplo disso. Basta andar pelas ruas da primeira cidade de Minas para se avaliar o que significa a Samarco, subsidiária da Vale, não ter voltado a funcionar. De forma que essa história de que a Vale pode deixar Minas soa muito mais como um boato, muito próprio aliás de situações assim, quando não como uma espécie de chantagem, com o intuito de chocar a opinião pública e evitar maiores sacrifícios financeiros. De tudo também é preciso preservar a Vale, punindo os responsáveis diretos e indiretos, inclusive seus acionistas, pela incúria da administração da empresa que já havia cometido o mesmo crime em Mariana e fê-lo novamente em Brumadinho, em proporções humanas muito maiores.

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