Um atraso

Por Carlos Lindenberg

A Vale chega com pelo menos dez anos de atraso, para não ir muito longe, ao anunciar que vai acabar com as suas dez barragens de rejeitos de minério, em Minas Gerais. Se tivesse feito isso há mais tempo, teria evitado as 19 mortes que produziu em Mariana, há três anos, e as prováveis 300 ou mais que vai fazer em Brumadinho, sem mencionar aqui a grande devastação ambiental que provocou nos vales do Rio Doce e agora  no São Francisco.

Ao fazer o que chama de descomissionamento nessas barragens, todas construídas acima de cidades e povoados, a companhia estima gastar R$ 5 bilhões ao longo de três anos, o que é muito pouco para quem remunerou os seus acionistas, só no ano passado, com R$ 7 bi, deixando atrás de si um descomunal rastro de mortos, feridos e desalojados de toda espécie.

Pior para Minas Gerais, que já não anda bem das pernas e que ficará com bilhões a menos em sua arrecadação anual, já que nesse período de três anos a Vale deixará de produzir 40 milhões de toneladas aqui no estado. Não se sabe como o governador Romeu Zema  (Novo) aceitou essa decisão da Vale. 

Pelo menos um deputado, João Vítor Xavier (PSDB), presidente da Comissão de Minas e Energia da Assembleia Legislativa mineira, irá ao Ministério Público para contestar parte da decisão: uma delas, a de que a Vale não deixe de pagar nenhum imposto a Minas e ainda faça a plena recuperação das áreas devastadas, a começar das barragens de rejeitos, já que não tem como tapar os buracos que têm deixado no solo mineiro desde que começou a extrair minério de ferro em Itabira, em 1942, ainda com o bucólico nome de Companhia do Vale do Rio Doce – depois abandonado para simplesmente Vale – segundo o poeta Drummond que um dia escreveu: ‘O Rio? É doce/ A Vale? amarga…’ cunhados em 1984, no poema “Lira Itabirana”.

Versos afinal proféticos diante do desastre de Mariana e do crime repetido em Brumadinho. Fala-se agora em CPI do Congresso ou quem sabe da Câmara ou do Senado – cada qual quer tirar o seu proveito – para apurar a atuação da Vale no país. Como sempre, nossos políticos, assim como a Vale, também chegam com atraso.

*Carlos Lindenberg é colunista do Metro Jornal. Escreve neste espaço às quintas.

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